João Tempera: «Levei uma canção à guitarra que fomos entremeando pela leitura e pelos seus desvios»

João Tempera partilha a experiência de duas sessões «Fábulas Contadas» que dinamizou na Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa. Conduzidas por diferentes contadores, estas sessões realizam-se uma vez por mês e têm por base livros da chancela Fábula. As próximas já têm data marcada: 6 de junho e 4 de julho.

 

Receber a primavera com Começa Numa Semente

Numa manhã solarenga de finais de março, tive a alegria de apresentar no átrio exterior da Casa do Jardim da Estrela, o livro Começa Numa Semente, de Laura Knowles (Prémio Margaret Mallett, prestigiado prémio de Não-Ficção Infantil), que, através de uma linguagem poética, com ilustrações delicadas e um grafismo muito cuidado, nos mostra o crescimento de uma semente, ao longo do tempo, até se tornar numa frondosa árvore, que acolhe as estações e dá abrigo a tantas criaturas. Eu, e todas as crianças que vieram juntar-se a esta celebração da primavera e dos livros, estirámo-nos num círculo de pufes de modo a conseguirmos ter no campo de visão o livro que íamos folheando e, ao mesmo tempo, as copas das árvores que nos davam sombra no jardim.
Para esta leitura, levei uma canção à guitarra, que compus a partir dos versos do livro Espera pela primavera/ Pelo sol com o seu calor/ E então, tudo floresce/ Palpita de alegria e cor, que, como um refrão, fomos entremeando pela leitura e pelos desvios a que algumas palavras novas e ideias importantes nos conduziam. No final, enchemos de terra uns vasos pequeninos, em que semeámos girassóis para levarmos para casa, cuidarmos e vê-los crescer, fazendo-nos lembrar das raízes que entretecemos entre nós nessa manhã.

 

O que há Para Lá da Toca?

Na manhã de sábado do dia 2 de maio, a Casa do Jardim da Estrela voltou a ser palco e oficina de mais uma sessão de leituras da Fábula. Desta vez, no espaço da Biblioteca, com o livro Para Lá Da Toca, de Jessica Meserve. Umas duas dezenas de pessoas, entre crianças, pais, mães e avós, juntaram-se naquela sala cheia de livros e janelões irradiando a luz serena de um início de dia nublado, para descobrirem a história de uma coelha temerosa, acidentalmente enredada numa aventura que vai proporcionar-lhe inúmeros desafios, encontros e aprendizagens.
Natural de uma pacata e, aparentemente feliz, comunidade de coelhos muito apegada ao seu pequeno território e aos seus hábitos de comer cenouras (e apenas cenouras), escavar túneis e dormir, evitando quanto possível as ameaças imaginárias do exterior e das criaturas que lá habitam, a nossa heroína improvável percorrerá as etapas da Jornada do Herói (padrão que Joseph Campbell identificou como estrutura clássica das narrativas mitológicas), embarcando numa aventura que a levará para longe da sua toca, em que superará provações, encontrará mentores e aliados, retornando, por fim, ao seu lar, como um ser transformado pela experiência e pelo conhecimento.
Depois da história, que foi acompanhada por sonoplastia colaborativa e muitas perguntas, ainda construímos um sinal de indicação para cada participante pôr à porta do quarto, parecido com as numerosas placas de aviso que abundam no livro, mas, o nosso, apontando para o quanto há de curioso lá fora, no mundo. (Esta atividade teve o apoio da construtora de marionetas, Joana Elisa, e do Fausto.)

João Tempera, ator e mediador da Aletria Biblioteca Itinerante

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