Conversámos com Bárbara Cardoso, a propósito do seu romance de estreia, O Que Resta. Uma história comovente, com cunho pessoal, sobre o amor que permanece quando a memória falha e sobre a difícil aprendizagem de deixar ir sem deixar de amar.
Este é o teu primeiro livro publicado. Quem dirias que são as tuas influências literárias?
Embora beba um pouco de todos os autores que escolho ler, é inevitável responder a esta pergunta sem mencionar José Saramago e Valter Hugo Mãe que, não só abriram o mundo da leitura para mim, como me inspiram em variadíssimas características da sua escrita. Saramago pela audácia das premissas e pelo sarcasmo tão provocador (para além da óbvia mestria com as palavras) e Valter Hugo Mãe pela delicadeza e poesia que coloca em absolutamente todas as frases que escreve. Ler livros dele é uma espécie de casamento entre ouvir uma música e olhar um quadro, e dizer que isso não me fascina, seria uma mentira. Mas também adoro outros autores: Carla Madeira, Jefferson Tenório, Hugo Gonçalves e Ana Bárbara Pedrosa.
De que forma achas que a tua ligação às artes plásticas/visuais influencia a tua escrita?
Por ter estudado artes visuais desde os meus quinze anos (para além de todo o estimulo que a minha família me deu desde pequenina), habituei-me não só a estar muito atenta aos detalhes de tudo o que me rodeia, como a encontrar beleza nos mesmos. Como a componente visual fez parte da minha rotina desde muito cedo, a beleza para mim sempre teve tanto de intrínseco como de secreto. A ideia de procurar a beleza no que não aparenta ser belo ou naquilo que é triste, acompanha-me desde sempre e acho que isso está muito presente no livro. Para além disso, acho que a minha escrita é bastante visual (pelo menos, quem já leu o O Que Resta constatou isso) o que prova que não consigo separar estas minhas duas dimensões.
O Que Resta fala-nos de uma personagem com Alzheimer, que começa a esquecer. O que motivou a abordagem deste tema?
Apesar de não ser uma autoficção ou uma obra biográfica, acabei por me basear imenso em experiências pessoais para a escrita deste romance. Diria que a espinha dorsal do livro é intimamente ligada com a doença de Alzheimer que roubou a minha avó do mundo enquanto eu era adolescente e incapaz de processar tudo na totalidade. Durante anos soube que queria pegar neste pedaço da minha história e torná-lo em mais do que memórias tristes.
Como foi partir de uma experiência tão pessoal e íntima, para escrever ficção?
Em grande parte, ajudou-me muito porque parte daquilo que eu teria de construir para a narrativa, já tinha um esboço feito no meu passado. Mudei muita coisa daquilo que foi a minha história com a minha avó, mas houve também muito que serviu de inspiração. Não senti que parti da estaca zero e isso foi positivo para mim. Mais do que isso, escrever sobre este período tão marcante na minha vida, como disse anteriormente, deu-me uma oportunidade de tornar um período triste numa coisa que possa ser apreciada, não só por mim, mas por quem decidir ler o que escrevi. Isso alegra-me muito.
As rosas carregam um grande simbolismo, ao longo de toda a história. Como nasceu essa imagem do roseiral e que papel teve na construção de Julieta?
A explicação mais superficial é a de que a minha avó gostava muito de rosas (como quase todas, acho eu). A um nível mais profundo, escolhi esta presença das rosas por carregarem consigo esta materialização do que é belo e espinhoso simultaneamente, tal como a vida – em específico, a vida da Julieta. Achei ser um elemento valioso para encapsular a essência desta história que ao mesmo tempo que reforça os espinhos, ao separar e desvanecer a relação destas duas personagens, enaltece o amor, que como digo algures no livro, entre elas “nunca foi incerto”.
Além do esquecimento, o livro fala sobre solidão, amor, juventude, velhice. Este jogo de paradoxos foi algo intencional?
Sim, aliás, foi a premissa inicial para que tudo ganhasse forma depois. Quis explorar, além da doença propriamente dita, o contraste entre duas personagens ligadas intimamente, que se amam de forma profunda, mas que começam um processo de transformação absolutamente distinto, em simultâneo. Julieta que começa a esquecer-se de tudo e a perder capacidades e Sara que inicia o processo de se construir a ela própria. Uma tenta encontrar o seu lugar no mundo enquanto a outra o vai perdendo.





