Um dos cenários do teu mais recente romance, A chuva que lança a areia do Saara, é uma pedreira, «última paragem para excluídos e desesperados» e para onde Firmino, uma das personagens centrais, é levado a fim de cumprir uma pena. Porquê uma pedreira? É que até nas tuas palavras «é preciso pontaria»?
Julgo que não existirão muitos romances passados em pedreiras, e pensei que talvez fosse o ambiente que pudesse simbolizar um estado de fadiga intensa, uma exaustão dos homens e animais que ali trabalham e esfacelam ossos e tendões. E também ao longo da narrativa ir procurando outras declinações de exaustão. A exaustão de um corpo em falência alcoólica, no qual, ainda assim, um coração insiste. A exaustão da Natureza, de um ecossistema exterminado, de um rio desviado. A exaustão de trabalhar no bordel, que é mais ou menos parecido com as galés. A exaustão de uma mulher violada e a sua anatomia vilipendiada, das unhas às pontas dos cabelos. A exaustão da paixão que não passa e consome. A exaustão de viver a vida dos outros e limpar o já limpo e esfregar o já esfregado. A exaustão da imagem, daqueles que, sendo velhos, forçam o seu corpo em desespero a parecer novo. A exaustão da exibição permanente, a atracção do feio, das aberrações, que garantem, como se sabe, muitas visualizações. Em suma, remetendo para as primeiras décadas do século passado, é um romance sobre os dias de hoje.
Por outro lado, as pedras são metáforas muito poderosas, muito férteis literariamente, apesar de áridas na vida cá de fora. Podem remeter para Sísifo, para o absurdo da existência, para a pedra de Drummond que, neste caso, é assassina, ou para as poeiras de Caetano, que dão o título ao livro e abrem para a ideia de efeito borboleta. Tudo o que sucede a dada altura se reflecte num outro acontecimento mais adiante, como as tempestades do Saara que lançam poeiras e alergias para a Europa.
Nessa pedreira, vive uma mulher, espécie de curandeira do local, que cuida dos feridos e que exerce um tremendo fascínio sobre todos os homens, apesar de ter uma deformação no rosto. Esta é também uma forma de questionares certos ideais de beleza?
Sim, de certa maneira. Não tanto os ideais de beleza, mais as ideias preconcebidas, as convenções que gosto de subverter. Os homens sentem-se deslumbrados por uma mulher com uma deformidade muito evidente. Há um cão que abandona o dono, em vez de ser o contrário. Há o reverso de um harém, muitas mulheres mantêm e amam um só odalisco. Há um agregado formado por dois homens e uma galinha. E esta galinha não é nada submissa nem comestível, mas muito caprichosa e leva um nome aristocrático.
A Natureza é também personagem neste romance. Não só a Natureza agreste das escarpas e das pedras, mas o ataque que o Homem faz constantemente à Natureza, tentando vergá-la. Foi tua intenção desviar o olhar do leitor para essa violência?
Foi sim. Depois de começar o comboio de guerras que se sucedem e se acumulam no mundo, destes massacres diários que se tornaram ruído de fundo de televisão, saiu totalmente da agenda mediática, e até das preocupações das pessoas, a questão ambiental. E, no entanto, a guerra, além de ser obviamente um negócio de morte, de dizimar gerações e amputar para sempre os países é das indústrias mais poluentes e contaminantes que podem existir.
São muito poucas as personagens solares neste livro. E, as que aparecem ao longo destas páginas, são vítimas da sua própria bondade. É o caso de Bartolomeu e Amélia, a irmã de Celavie. Achas que a bondade é menos propícia à literatura? Ou que deve ser usada com maior parcimónia?
Sim, se calhar, porque eu também sou uma pessoa um bocado lunar… Neste romance a bondade, a ingenuidade, a docilidade não salvam ninguém. Mas a maldade também não. O pragmatismo e a clarividência de Ana Cassandra é mais salvífico…
Tudo o que sucede a dada altura se reflecte num outro acontecimento mais adiante como as tempestades do Saara que lançam poeiras e alergias para a Europa.
São muito poucas as personagens solares neste livro. E, as que aparecem ao longo destas páginas, são vítimas da sua própria bondade. É o caso de Bartolomeu e Amélia, a irmã de Celavie. Achas que a bondade é menos propícia à literatura? Ou que deve ser usada com maior parcimónia?
Sim, se calhar, porque eu também sou uma pessoa um bocado lunar… Neste romance a bondade, a ingenuidade, a docilidade não salvam ninguém. Mas a maldade também não. O pragmatismo e a clarividência de Ana Cassandra é mais salvífico…
E em relação a projetos vindouros? Poderás desvelar já alguma coisa?
Sim. Penso que os escritores se expõem imenso nos romances. É uma exposição muito íntima, muito interior, quase uma devassa. Só que através de personagens, de situações inventadas, de lugares remotos e séculos longínquos, de contextos improváveis… E, no meio deste caldo, lá estamos nós, escritores, a espreitar atrás das linhas. Talvez no meu próximo projecto, no qual já estou a trabalhar desde o verão passado, não quebre a quarta parede, mas abra uma brecha. E me mostre mais eu, seguindo o lema de Manoel de Barros, «tudo o que não invento é falso».





