«Carrego no corpo o mapa de uma viagem. Um território onde cada linha gravada não é apenas o vestígio de um instante, mas a tradução silenciosa do tempo que se inscreve na carne. Chamam-lhe marcas de guerra ou provas de crescimento. Para mim, cada cicatriz é mais do que uma ferida encerrada: é o eco de um gesto, uma dança abrupta entre a vida e o destino. Há nelas uma profundidade que ultrapassa a superfície da pele, como se fossem janelas para um outro mundo — o mundo que já foi e que insiste em permanecer.
Recordo-me da primeira cicatriz, essa linha que se abriu numa brincadeira pueril, enquanto jogava ao berlinde com a Sónia, no Bairro dos Pescadores. Um pedaço de vidro cravado na sola de uma sandália tornou-se cúmplice do acaso, e a minha pálpebra transformou-se no palco de um susto. Fugimos todos: ela, do meu sangue; eu, da dor que não sabia nomear. Era o início de uma cartografia que inscreveria, na pele, as memórias do improvável.
Depois veio o disco de ferro, lançado com a força desmesurada de uma tarde de infância. Era apenas uma brincadeira, mas a sua precisão rasgou-me a testa e gravou, nos ossos, um lembrete: nem toda a linha que cruza o nosso caminho pode ser evitada. A testa guardou a cicatriz; a memória, o impacto.
Mais tarde, no quintal do meu primo Miguel, um pedaço de plástico derretido dançou sobre o fogo e, num impulso selvagem, foi lançado ao ar como uma seta improvisada. A sua trajetória encontrou o meu pulso, e a dor, tão quente quanto o próprio material incandescente, espalhou-se pelo meu corpo como uma corrente elétrica. A marca permanece, uma pulseira ardente cravada pela mão do acaso.
Estas são apenas algumas das cicatrizes visíveis — as marcas que a pele negra não pode esconder, que desafiam a lógica da suavidade. A nossa pele cicatriza de forma diferente: mais densa, mais alta, como se cada ferida quisesse contar a sua história em relevo. Fibroblastos que se multiplicam, colagénio que insiste em sobrepor-se, queloides que se erguem como monumentos da resistência do corpo. Mas o que dizer das cicatrizes invisíveis? Aquelas que habitam o âmago, onde a memória e a emoção deixam sulcos que nenhuma ciência pode medir. Algumas estejam talvez subliminares nas linhas que ora vos apresento neste livro.»
In Prefácio, Cicatrizes, de Dino d’Santiago, a publicar em outubro com selo da Arena
Sobre o autor
Claudino de Jesus Borges Pereira, de nome artístico Dino D’Santiago, nasceu em 1982, no Algarve. Filho de pais cabo-verdianos, cedo envolveu-se nos movimentos de música urbana globalizada, fundindo os universos do soul, hip-hop com o Batuku e Funaná.
Foi distinguido com inúmeros prémios e aclamado pela crítica nacional e internacional.
Fundador do projeto Lisboa Criola, foi considerado em 2021 uma das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes pela MIPAD (Most Influential People of African Descent). Em 2023 foi escolhido pelo Expresso como uma das 50 figuras que podem vir a definir o futuro de Portugal, e foi condecorado com a Medalha de Mérito Cultural. Em 2024 recebeu dois prémios dos Cabo Verde Music Awards, como melhor artista em palco, além do prêmio Ação Social, foi indicado aos Latin Grammy na categoria de Melhor Canção em Língua Portuguesa e empossado como Membro da Comissão pela Igualdade e Contra a Desigualdade Racial pela Assembleia da República Portuguesa. Dino D’Santiago é ainda co-fundador e Presidente da Associação Mundu Nôbu.