filipa fonseca silva

Dar voz ao que se esconde, por Filipa Fonseca Silva

Há uns anos, num jantar de família, estava à conversa com a namorada do meu primo sobre histórias reais que parecem ficção, quando ela, que é assistente social de pessoas em fim de vida, me contou algo quase inverosímil. Uma mulher, que durante décadas foi amante de um homem casado e com filhos, quando se viu à beira da morte, mostrou-se revoltada e arrependida com a vida que escolhera, não só por ter abdicado de ter uma verdadeira família e de viver um amor pleno, mas porque, a dada altura da relação, o homem comprou o apartamento contíguo ao seu e substituiu a parede que ligava os dois imóveis por uma parede amovível, que estava aberta quando viviam apenas os dois, mas que se fechava quando a família dele o ia visitar.

Nos dias seguintes a este relato, não consegui pensar noutra coisa. Quem era aquela mulher? Porque se deixara enredar naquele romance proibido durante décadas? Porque se subjugara daquela maneira? Porque acreditara que aquilo era tudo o que merecia ter? E quando tantas perguntas me assolam, invariavelmente, escrevo.

Cresci envolta em histórias de mulheres, a ouvir as conversas entre a minha mãe e as amigas, quando pensavam que eu estava distraída a brincar com as Barbies no chão da sala. A absorver os detalhes das bisbilhotices trocadas no café, enquanto me julgavam entretida com o meu pastel de nata. A confrontar-me com mil formas de sofrimento, enquanto achavam que eu estava a dormir no banco de trás. Muitas das histórias eram precisamente de traição e, não raras vezes, terminavam com a desculpabilização do homem adúltero e a condenação eterna da amante. Oh sim, a amante, aquela puta, rouba-maridos, megera, vadia, invejosa, interesseira, só quer o dinheiro dele, os presentes, as viagens.

Aliás, a temática da traição tem sido amplamente dissecada na literatura, porém, costuma centrar-se na mulher que trai o marido (Madame Bovery, Anna Karenina, O Primo Basílio) ou no marido que trai a mulher (Dr. Jivago, A Insustentável Leveza do Ser).  Curiosamente, os poucos romances centrados na mulher traída são escritos por mulheres a partir da segunda metade do século XX, e à amante, em qualquer uma destas perspetivas, resta, por norma, o papel secundário de vilã sedutora, nunca de vítima. Mas para mim aquela mulher era uma vítima, e não consegui deixar de pensar nela com pesar.

Abordei, de leve, o sofrimento do adultério para a mulher casada através da personagem principal de E Se Eu Morrer Amanhã?: Helena aguentou calada inúmeras traições, porque era esse o papel das mulheres da sua geração, e só se descobriu a si própria quando ficou viúva. Mas com esta história, tive a oportunidade de explorar o sofrimento da amante. Foi particularmente difícil fazê-lo, confesso, pois vivi de perto a dor de muitas mulheres traídas e a devastação que provoca numa família. Difícil, mas necessário, porque as outras também merecem ter voz.

A Mulher por Detrás da Parede é, assim, a tentativa de fazer justiça a esta e a todas as mulheres que são ensinadas a relativizar as transgressões masculinas e a empolar as femininas, quando, na verdade, todas são vítimas de um sistema que continua a culpá-las de todos os pecados, incluindo o pecado original. É também um apelo a que, homens e mulheres, derrubem as paredes reais ou metafóricas que são construídas à sua volta. Porque ninguém deve ter de se esconder e todo o amor deve ser vivido livremente.

–Filipa Fonseca Silva, autora

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