Foi-me diagnosticado PHDA há décadas, nos meus 50 anos. Como escrevi no meu livro sobre o tema, Mentes Dispersas, isto “parecia explicar muitos dos meus padrões de comportamento, processos de pensamento, reações emocionais infantis, o meu vício pelo trabalho e outras tendências viciantes, as súbitas explosões de mau humor e a completa irracionalidade, os conflitos no meu casamento e a minha forma de me relacionar com os meus filhos… Também explicava a minha propensão para esbarrar em portas, bater com a cabeça em prateleiras, derrubar objetos e esbarrar em pessoas antes de reparar que ali estão.”
Em retrospectiva, porém, o meu “parecia explicar” foi um revelador ato falho freudiano, pois, na verdade, o diagnóstico não esclarece nada. É uma descrição útil, mas falha equanto explicação. Não há consenso sobre praticamente nenhum aspeto da PHDA. Embora se tenha tornado objeto de um aceso debate intelectual sobre a sua natureza, neurobiologia, origens – e, em alguns círculos, até a sua validade – o diagnóstico está a expandir-se internacionalmente. Um pouco por todo o mundo, cada vez mais crianças enfrentam dificuldades com a atenção, instabilidade emocional, dificuldades de aprendizagem e regulação comportamental, para não falar do leque de outros diagnósticos, como perturbações do espectro do autismo, ansiedade, “oposicionalidade”, depressão ou o termo abrangente “neurodivergência”.
O que concluir de tudo isto? Entre as possibilidades estão uma inflação injustificada de diagnósticos, aliada, por outro lado, a um maior reconhecimento; ou alguns atributos da cultura contemporânea que exercem uma influência nefasta no desenvolvimento saudável de muitas crianças. Considero que ambos devem ser tidos em conta – principalmente o último, e com maior urgência.
Não há consenso sobre praticamente nenhum aspeto da PHDA.
Muitos vêem a PHDA como uma disfunção biológica do cérebro, em grande parte enraizada na genética. Por vezes, diz-se que é a doença mental “mais hereditária”, o que, na minha opinião, é como chamar ao quartzo o cristal mais mastigável. Apesar de alguns relatos anteriores, já refutados, nunca foi identificado nenhum gene ou grupo de genes como determinante da desatenção, da hiperatividade ou do deficiente controlo dos impulsos. No máximo, proporcionam uma predisposição, mas isso está longe de ser uma predeterminação, uma vez que os genes são ativados e desativados pelo ambiente. Seja qual for a contribuição genética, devemos ainda perguntar-nos que características da vida moderna podem sabotar o desenvolvimento humano ideal. A chave reside na inextricável e multifacetada aliança das experiências social e pessoal, da psique e da neurobiologia. O cérebro, como nos diz a neurociência, é um órgão social, modulado pela forma como o meio, particularmente o meio emocional, atua sobre o material genético. Esta interação começa ainda no período pré-natal, no útero. E aí reside o problema.
O que se passa com esta indispensável relação entre pais e filhos, sob o atual domínio do neoliberalismo? Perante um cenário de crescente desigualdade e insegurança económica; isolamento cada vez maior; destruturação das redes de suporte social, como a comunidade tradicional e a família alargada; fragilização da rede de proteção social; proliferação da hostilidade social; e o apelo viciante dos meios digitais – considerando tudo isto, o stress sobre as famílias e os jovens pais torna-se cada vez mais insuportável. Os pais stressados, apesar de todo o amor e devoção que sentem e desejam transmitir aos seus filhos, estão em desvantagem. Estudos demonstram que, quando stressados, os pais são menos pacientes, mais punitivos e mais severos com os seus filhos pequenos. O stress prejudica a sua capacidade de serem calmos, responsivos e sintonizados. Quando os pais estão stressados, as crianças também ficam, o que afeta o desenvolvimento cerebral e o funcionamento do organismo. E, quando stressadas, as crianças tendem a “desligar” como mecanismo de defesa. O comprovado impacto psicológico e neurotóxico dos meios digitais intensifica o risco para o cérebro jovem.
Onde está, então, a solução? Tem de estar alicerçada num compromisso social de apoio às grávidas; de auxiliar as famílias jovens; de não culpabilizar os pais, nem estigmatizar as crianças com problemas, como acontece com demasiada frequência; de tratar os jovens com plena compreensão e empatia em todas as instituições de educação de infância, desde o pré-escolar até à adolescência; de oferecer ajuda especializada a todas as crianças que, sem culpa própria ou dos seus pais, se sintam desconfortáveis com as características da PHDA. E, não menos importante, na compreensão, por parte dos profissionais de saúde, de que ajudar os pais, com compaixão, a lidar com os seus próprios stresses emocionais e traumas não resolvidos é essencial para garantir um ambiente harmonioso para o desenvolvimento da criança.
Será que tudo isto acarretará custos financeiros, como parecem temer alguns comentadores conservadores? Sim, uma ninharia quando comparada aos custos socioeconómicos e ao sofrimento humano impostos pelas actuais condições sociais, que criaram um contexto instável e até hostil para a educação dos jovens.
–Gabor Maté, Why are diagnoses of ADHD soaring? There are no easy answers – but empathy is the place to start, The Guardian, dezembro 2025 (adaptado).
Sobre o livro

Com base em décadas de experiência clínica e investigação, Gabor Maté, um dos mais respeitados especialistas internacionais em saúde mental, apresenta-nos uma perspetiva inovadora sobre a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), transmitindo uma mensagem de otimismo não só a crianças e adultos que vivem com esta condição, mas a todos os que se sentem frequentemente distraídos, ansiosos ou incapazes de controlar a sua impulsividade.






