Laura Imai Messina: «A mistura de verdadeiro e presumido torna-se inseparável»

Laura Imai Messina nasceu em Roma mas, aos vinte e três anos, mudou-se para o Japão, onde obteve um doutoramento na Universidade de Estudos Estrangeiros. Este país, onde ainda reside, serve de pano de fundo para os seus três romances já publicados pela Suma de Letras, em Portugal. O Que Contamos ao Vento, baseado na existência real do Telefone do Vento, foi a sua estreia internacional. Está publicado em mais de vinte países e os direitos para filme foram adquiridos pela produtora Cattleya. A esse romance de estreia internacional, seguiram-se A Ilha onde Batem os Corações e agora Palavras à Deriva.
Conversámos com a autora sobre a inspiração por trás dos livros e o seu processo de escrita.

 

Nos três livros que tem publicados pela  Suma de Letras, em Portugal, escolheu sempre um local real, no Japão, e ficcionou-o. Porque usa este recurso?

Acredito na realidade tanto quanto acredito na narrativa que, quando capaz, reflete a complexidade da vida. Há uma abundância de lugares excecionais no Japão, mas só alguns têm uma essência universal. O telefone do vento em Iwate, o arquivo dos batimentos do coração em Teshima e o posto dos correios à deriva em Awashima contam as necessidades e sentimos que ultrapassam os confins culturais de uma nação. Tocam na necessidade básica humana de alcançar algo que não se vê. Mas, só porque não se vê, não significa que não exista.

 

Como é o processo de escrita? Visita os locais sobre os quais escreve?

Primeiro, na minha imaginação, nasce a sugestão destes locais cheios de história, por onde passam existências muito diferentes. Depois de depositada a sugestão, crio as personagens e imagino os vários modos (muitas vezes opostos) como se relacionam com o tema que o lugar escolhido representa. À medida que vou ‘vendo’ as personagens, começo a questioná-las acerca do tempo (passado, presente e futuro) e a fazê-los colidir um com os outros. Às vezes, visito o lugar depois de ter escrito o livro, principalmente, quando há risco de a realidade me levar a escrever um ensaio em vez de um romance. Com Palavras à Deriva, visitei o posto dos correios à deriva duas vezes antes de escrever, mas só entrevistei o direto depois. Há um limite que tento não ultrapassar, no conhecimento. Devo manter-me, enquanto escrevo um livro, numa zona de evocação. É como a diferença entre um esboço feito a lápis e uma fotografia. Quando escrevo ficção, prefiro o primeiro, talvez pelo caráter universal que considero que possui.

 

Os locais são reais, mas quão reais são as histórias e as personagens?

Antes de escrever, seja um ensaio ou um romance, estudo muitíssimo o lugar, leio livros a respeito dele, falo com pessoas que tenham visitado, tento observar tudo. Quando começo a escrever um romance, a certo ponto a mistura de verdadeiro e presumido torna-se inseparável. Ao fim ao cabo, qualquer história é real. Pode já ter acontecido, numa altura e num lugar diferentes. Só porque nunca ouvimos diretamente falar dela, não quer dizer que não exista.

 

As cartas que aparecem em Palavras à Deriva são reais?

Criei tudo do zero, em parte inspirada em coisas que aconteceram à minha volta, em parte com base em cartas que li no posto dos correios à deriva, em Awashima. Talvez essa tenha sido a parte mais emocionante da escrita deste livro, para mim. Mal esperava pelo momento de escrever outra carta. Podia ter escrito um romance só de cartas.

 

Qual e a tua carta preferida do livro e porquê?

A minha carta preferida é aquela “a mim própria antes de ter a minha filha”. Acredito profundamente na força tanto curativa como envenenadora da língua. Acredito que, quando algumas expressões se tornam crónicas no nosso vocabulário, quando as usamos constantemente, o pensamento segue-las sem as interrogarmos, quase sem saber o seu significado. Por isso, é importante estarmos conscientes do que dizemos, das palavras que usamos para expressar os nossos pensamentos e emoções. Na educação de um filho, há muito que se estraga através da linguagem. Amor, zanga, desilusão, alegria passam através de palavras. Saber escolhê-las é decidir como cresce uma criança. As crianças alimentam-se de palavras.

Outra carta que adoro é “ao inventor do secador de cabelo”. Embora tenha sido inspirada numa carta que li em Awashima, é muito autobiográfica.

 

A quem escreveria uma carta para enviar para o posto dos correios à deriva?

Escrevi ao peluche que me fez companhia em criança, à primeira caneta de tinta permanente que o meu pai me ofereceu, ao meu ‘eu’ do passado (para a elogiar) e ao meu pai, que faleceu no ano do Covid, em 2020. Ao escrever-lhe, percebi que a nossa relação estava resolvida. Foi um alívio.

 

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