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Livraria do mês: Greta

Num mundo cada vez mais digital e uniformizado, as livrarias e livreiros independentes são uma espécie de ilhas do tesouro. Espaços de curadoria literária, trazem recomendações personalizadas a cada leitor e permitem fortalecer um sentimento de comunidade.
Assim, assumimos uma missão: dar às livrarias independentes o destaque que merecem, entrevistando um livreiro por mês, pelo país fora. Durante esse mês, os leitores terão descontos exclusivos em todos os nossos livros comprados na livraria em destaque. Começámos pela livraria feminista Greta,  na Rua Palmira, Bairro dos Anjos, em Lisboa.
A livraria Greta fica na R. Palmira 66C, 1170-287 Lisboa

A livraria Greta é fruto de um sonho de Lorena Travassos, fotógrafa, investigadora e professora, e do apoio de uma comunidade com vontade de ler mais no feminino. O nome remete, precisamente, para ‘greta’ enquanto abertura para livros escritos por mulheres e pessoas não-binárias. A livraria conta ainda com uma seleção de livros sobre teoria de género e teoria feminista, “que, muitas vezes, não são fáceis de encontrar.”

Além de livraria, a Greta procura ser casa da comunidade que a apoia. Desde a publicação independente, apresentações e leituras, clube do livro, Lorena descreve-a como “um lugar seguro para se pensar, para se ler, para se discutir esses temas”.

Conte-nos como é que surgiu a ideia, primeiro, de ter uma livraria, e depois, que ela fosse feminista…

Sempre quis ter uma livraria. A minha formação é em jornalismo e sempre tive a ideia de, quando me formasse, abrir uma livraria. Já tinha feito um um estudo financeiro para isso, quando vivia no Brasil. Só que as coisas não acontecem muito bem de acordo com o que a gente espera, nem o que a gente deseja: tive de trabalhar muito e não consegui investir o dinheiro nem o tempo nesse sonho. Vim fazer o doutoramento aqui em Lisboa e comecei uma investigação que abordava questões de género. Sempre visitei livrarias feministas em outros lugares da Europa, mas aqui em Lisboa não existia nenhuma.

Então, na época do Covid, que é um momento em que a gente começa a repensar tudo, em que diminuiu o trabalho e foi preciso pensar ‘o que é que eu quero fazer?’, ‘eu quero seguir meus sonhos’. Decidi que ia tentar fazer a livraria feminista, que tivesse os temas que me interessavam. Lancei uma campanha de crowdfunding para saber se, em Portugal, havia interesse, porque eu achava muito estranho não existir ainda. Quando terminou, consegui o valor todo da campanha para fazer um site e comecei com a venda online em 2021.

A Greta é um projeto que, na verdade, desde o início tem este apoio de uma comunidade. Tem gente que compra na livraria desde o início, até hoje. Gente que nos segue, que faz planos de assinatura de um ano e recebe livros em casa. Foi sempre com o apoio da comunidade.

 

Os homens também visitam a sua livraria?

Visitam, mas são poucos. Têm aparecido mais homens depois que abri a livraria física.

Quando estava vendendo só na livraria online, 1% das vendas eram de homens, 99% de mulheres. Mas a maioria dos homens que vem à livraria, até hoje, estão sempre procurando livros para a irmã, para a namorada, um presente para uma amiga… Nunca é ‘estou aqui procurando um presente para mim, porque estou com consciência que estou lendo poucas mulheres, e queria conhecer mais.’ É lógico que existem algumas exceções. Já apareceu um homem que disse ‘eu não entendo nada de feminismo, queria que me indicasse algum livro para eu começar a entender sobre isso’.

E algo muito estranho acontece: às vezes, chega um casal — o homem permanece do lado de fora (da livraria) enquanto a mulher entra. A cena lembra uma loja de lingerie, como se a entrada deles fosse proibida. E as mulheres terminam acelerando o passo, não veem nada direito, porque eles estão esperando lá fora.

E algo muito estranho acontece: às vezes, chega um casal — o homem permanece do lado de fora (da livraria) enquanto a mulher entra. A cena lembra uma loja de lingerie, como se a entrada deles fosse proibida.

Partilhe connosco uma autora que tenha descoberto recentemente.

Alana Portero, autora de Maus Hábitos. É uma autora que está fazendo muito sucesso em Espanha, há muito tempo, e que em Portugal vende muito pouco. O que é uma tristeza, porque é uma mulher trans, que escreve sobre uma criança trans. Era muito bom que as pessoas pudessem compreender melhor como funciona a realidade trans; como é complexa a infância de uma pessoa trans. Foi uma grande descoberta e tenho muita pena que aqui em Portugal não se leiam tanto os livros dela.

 

Aproxima-se o Dia Internacional da Mulher. Qual é, para si, a melhor maneira de celebrar este dia?

É um dia em que, geralmente, faço greve. Vou para a marcha e não trabalho. Continuam a fazer eventos no Dia Internacional da Mulher, chamando mulheres para trabalhar, o que é muito contraditório, não é? Eu nunca trabalho nesse dia porque acho que é um dia de reivindicação. É um dia que se deve aproveitar para pensar: como está conformada a sociedade; como apoiar as mulheres; pensar nos seus privilégios. Apesar de tudo, também sou branca e tenho os meus privilégios. Acho que este é um dia para pensar em apoiar mesmo as lutas das mulheres. Acho que isso já é suficiente. Não é o dia de dar rosas.

É um dia para pensar em apoiar mesmo as lutas das mulheres. Acho que isso já é suficiente. Não é o dia de dar rosas.”

Que livros recomenda para assinalar o Dia Internacional da Mulher?

Trilogia da Paixão, de Ariana Harwicz, é muito importante, porque fala principalmente sobre maternidade, de como tem gente que sofre com a maternidade, não por questionar o nascimento dessa criança, mas pela forma como o corpo se transforma. A questão da depressão pós-parto. A questão de ‘não gosto de ser mãe, mas gosto do meu filho’. Essas ideias contraditórias de maternidade, acho fantástico ler sobre isso.

Depois, Melhor Não Contar, de Tatiana Salem Levy. É uma autoficção que fala sobre o abuso, principalmente, abuso infantil. Muita gente já passou por isso e não compreendia, não tinha ferramentas para pensar sobre isso, para pensar como trabalhar esse trauma. Também fala sobre o aborto, um tema que vai e volta por causa dos governos de direita. A gente está sempre tentando debater mais sobre isso, porque é um direito conquistado, mas não há muito tempo.

Gosto muito do Paradaise, da Fernanda Melchor. Não é um personagem mulher; o personagem principal é um homem negro e pobre. Mas mostra como a mulher é objetificada, como a mulher é tornada sempre objeto de desejo, de sexo, de crime passional. É mais um livro que mostra essa violência que existe sempre na condição de ser mulher.

Finalmente, amo o livro Manual para a Mulheres Limpeza, de Lucia Berlin. Acho que é um dos melhores livros que já li. Tem muitas camadas, porque é um livro que tem várias histórias, que vai passar também por vários momentos, várias crises. E está muito bem escrito. Mostra vários dilemas da vida dela, enquanto mulher de limpeza. É um livro que acho que todo mundo deveria ler, porque é maravilhoso.

 

Se não fosse livreira, o que é que quereria ser?

Escritora. Quando fiz jornalismo, achava que ia ser escritora. Tinha escrito um livro para criança, na época. Mas isso foi passando e eu terminei fazendo investigação, escrevendo artigos científicos… e ao mesmo tempo, lendo o tempo inteiro. Então, não sei se um dia vou conseguir escrever algum livro. Não sei, ainda estou investigando a possibilidade.

Dia 27 de fevereiro, às 19h00, realiza-se, na Greta, uma conversa sobre o livro A História da Arte Sem Homens. Mais informação aqui. Dia 6 de março, haverá um encontro de mulheres para ler textos (próprios ou de outras pessoas), que contará com vozes portuguesas, italianas, sul-americanas e mais! Mais informação em breve no instagram da livraria.

Durante o mês de março, os leitores podem contar com 10% de desconto em qualquer livro da Penguin Random House Portugal comprado na livraria Greta!

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