O império do fim: nota da editora

O Hugo Gonçalves acaba de lançar O império do fim, e com este romance vem provar-nos, a nós, editores, e aos seus leitores, que continua a desafiar-se, e que o risco compensa. Mais uma vez, e logo às primeiras páginas, rendemo-nos à evidência de que Hugo Gonçalves é um escritor que não deixa uma frase ao acaso, um acontecimento por confirmar, uma estrutura que não tenha sido pensada e repensada com a precisão e mestria de um engenheiro, de um arquitecto, de um mestre-de-obras, de um servente.

Num verdadeiro exercício de recuperação do passado, não se limita o autor a entreabrir o pano, ele escancara-o para nos mostrar as feridas ainda abertas do colonialismo, da guerra e do pós-colonialismo, que não só parecem hereditárias, como nunca chegaram a cicatrizar completamente.

Contudo, embora a guerra acompanhe uma boa parte da narrativa, a memória ocupa sem dúvida um papel central, a memória que Cosme, um dos protagonistas, está a perder e a memória de Mouzinho, ainda em carne viva, as duas encontrando-se a meio do romance e aí divergindo, numa estrutura primorosamente arquitectada e que transmite bem a ideia de um mesmo acontecimento revisitado por perspectivas diferentes.

Mais do que um livro fundamental na nossa literatura contemporânea, O império do fim é um testemunho ímpar de um fim que não acaba.

Partilhar:
Outros artigos: