O lugar da incerteza, considerações de Lídia Jorge

por Lídia Jorge

Se O Lugar da Incerteza consentisse um subtítulo eu proporia que fosse servido pela fala interior de António, a personagem que diz – “somos de todos, somos para todos e podemos destruir-nos com facilidade, queres apostar?” Na verdade, Patrícia Reis, tal como tem vindo a praticar em romances anteriores, escreve sobre comportamentos humanos comuns passando o fio da faca pelas esquinas da singularidade individual. Projecto e fantasia, sonho e fatalidade, ambição e fragilidade, amor eterno e desaparecimento, moldam as suas personagens, e fazem delas figuras de um friso humano onde cada leitor se sente  contemporaneamente representado.

Em nenhum dos seus livros, porém, como em O Lugar da Incerteza esse bando humano se encontra tão reincidente no jogo do esconde-esconde. Por alguma razão o plano discursivo se processa em três andamentos – o que é pronunciado em voz alta, o que é pensado em voz baixa e a fala da narradora omnisciente que descreve o mundo, não do alto, mas ao lado dos simples seres fragilizados, iluminando os parceiros do tempo com uma ágil escrita na mão, essa lâmpada de mil watts que a autora manobra com agilidade telegráfica. A sensação que se tem ao ler este livro é que entrámos no seio de uma família comum para ver acontecer, como se fosse a nossa própria família e onde, à luz da escrita transparente da autora, nos reconhecemos como sujeitos. Estamos perante uma espécie de romance-espelho onde uma imensa maioria é convidada a ir ao encontro das suas próprias feições ali plasmadas. Julgo que O Lugar da Incerteza, além de oferecer esse espectáculo de intimidade sociológica relevante, propõe um estilo literário sem poeira cuja única fanfarra é a serenidade e a subtileza. Patrícia Reis tem gente viva dentro do peito e deseja apresentá-la aos impassíveis. Com este seu livro, cujo medo de ser e de existir  parece ser o grande dilema nunca resolvido, uma pessoa acorda, na última página, dolorosamente acompanhada e comovida.

 

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