László Krasznahorkai nasceu em Gyula, na Hungria, em 1954. Quando era jovem, não se imaginava a ser escritor. Antes de se dedicar à arte que viria a consagrá-lo como um dos autores mais singulares da literatura mundial, acumulou trabalhos diversos, como mineiro na região de Pécs, director de um espaço cultural numa aldeia remota, ou guarda-nocturno numa quinta, experiência que terá inspirado o seu primeiro romance, O Tango de Satanás.
Béla Tarr nasceu em Pécs, na Hungria, em 1955. Quando era novo, não queria ser realizador. Confessou em entrevistas que sonhava ser filósofo e concebia o cinema como ferramenta para compreender e mudar um mundo que, antes de mais, precisava de viver na pele. Trabalhou num estaleiro naval e numa fábrica, e, quando se inscreveu na escola de teatro e cinema, levava consigo filmes já feitos, primeiros esboços de uma obra que o tornaria um titã atrás da câmara.
Dois percursos distintos, que podiam ter sido paralelos, cruzaram-se ao longo de mais de três décadas de cumplicidade e amizade. Krasznahorkai e Tarr formaram uma das duplas guionista-realizador mais duradouras e influentes da sétima arte. Das cinco longas-metragens que criaram em conjunto, três foram adaptadas de romances – As Harmonias de Werckmeister (a partir de Az ellenállás melankóliája [Melancolia da Resistência], de Krasznahorkai), O Homem de Londres (a partir de L’Homme de Londres, de Georges Simenon), e a obra colossal pela qual talvez sejam mais recordados, O Tango de Satanás, trabalho feito nos limites das linguagens de um e de outro, da literatura e do cinema.
Inspirado pelo romance homónimo com que Krasznahorkai agitou o mundo literário em 1985, adaptá-lo a cinema foi um desejo que Tarr viu adiado por muitos anos, demora à qual não terá sido alheia a situação política vivida à época na Hungria. Quando, em 1994, conseguiram desenrolar o livro em cerca de sete horas e meia de película, construíram um filme de culto inclassificável que conquistou lugar cativo na história do cinema. Também uma ultramaratona que continua a pôr cinéfilos e programadores à prova desde que se estreou – diz-se que o filme pode demorar tanto ou mais a ser visto que o romance a ser lido.
Em O Tango de Satanás, uma antiga cooperativa agrícola apodrece numa planície desolada, fustigada pela chuva incessante e pelo vento, cenário sombrio, desolador, cinzento no livro e reconstruído a preto e branco no filme. Nessas ruínas, um pequeno grupo de habitantes, apático, grotesco, apodrece com a paisagem onde aguarda o regresso anunciado de Irimiás, falso profeta dado como morto há muito, figura enigmática e charlatão inveterado. Livro e filme seguem a estrutura de um tango – doze capítulos, doze partes, doze passos de dança, seis para trás, seis para a frente. O tempo e a espera atravessam os parágrafos extensos do livro, que se prolongam neste como noutros títulos de Krasznahorkai. No filme, desdobram-se em sequências de planos longos, imagem de marca do cinema de Tarr. Pelo meio, as personagens marcam passo e dançam na taberna, embaladas no filme pela banda sonora de Mihály Vig, que ali interpreta também o papel de Irimiás, e no livro pelo acordeão que ressoa enquanto as aranhas distribuem «as frágeis teias pelo cimo das garrafas, dos copos, das xícaras, dos cinzeiros, cercaram as mesas, as pernas das cadeiras». Sonâmbulas, naufragadas na lama, deslizam para um fim anunciado sem olharem ao apocalipse que já aconteceu. O ambiente é de pessimismo lúcido. Nas palavras de Petrina: «Abotoem os casacos, ponham os chapéus, enfiem os capuzes, e virem costas ao vosso brilhante e esperançoso futuro.»
Perto do final da sua vida, Béla Tarr mostrava-se céptico sobre a capacidade do cinema para mudar o mundo. No ano em que nos despedimos do realizador, falecido em janeiro, convidamos a recordar O Tango de Satanás. Se não tiver mudado o mundo, mudou certamente o cinema e a literatura. O mundo, esse, ainda não parou de acabar e continua a precisar de agitadores, como a obra de László Krasznahorkai, apelidado de «mestre do apocalipse» por Susan Sontag, não se cansa de nos relembrar.







