por Pedro Vieira
Há dias, com este volume prestes a entrar na fase quase metafísica da pré-venda — aquele momento em que o livro existe e não existe em igual medida —, encontro uma amiga das lutas de escrita na sala de exercício do Ginásio Clube Português, em Lisboa. O que é muito apropriado, já que a própria recorre muito às metáforas de treino e suor nas alusões ao ato de compor textos. Pergunta-me do que trata o meu novo volume, e ao saber das linhas gerais com que este se cose, brada «Um livro sobre mulheres usadas na História. Que grande ideia, tens muito jeito para a ficção!». Ironias ao largo, promete presença na sessão de lançamento e até a leitura atenta e crítica com que costuma brindar os amigos. É uma mulher emancipada, livre de ler o que quiser e capaz de pagar a sua mensalidade de ginásio-com-direito-a-PT, ou seja, é uma gota no oceano da experiência das mulheres. Pelo menos desde que a nossa vida na Terra começou a ser passada a escrito, e mesmo antes.
Esta Vénus em chamas não é um livro de História, mas é um livro de histórias, centrado sobretudo no controlo das narrativas (quase sempre imaginadas por homens) e no poder que estas emprestam a quem exerce esse controlo. Aqui, fala-se de figuras que se levantaram do chão para figurarem nas grandes crónicas da humanidade, mas que nem sempre conseguiram manter-se de pé. Mulheres que vivem no imaginário de milhões, que a espaços se emanciparam dos mitos e das narrações gravados na pedra; mulheres que aqui e ali até foram capazes de tocar com o seu exemplo a alma de estranhos, a inspiração de artistas, a esperança de anónimos. Cada capítulo abre com uma pequena ficção, porque também de invenção, de especulação, se fez boa parte do percurso de cada uma das sete figuras retratadas neste livro. Depois, entramos no campo dos factos, dos registos e também da interpretação, mostrando com exemplos que a História é uma disciplina que se constrói uma vez e outra pela mão dos vencedores; revelando quem é relegado para as sombras e quem é utilizado como artefacto, como instrumento. Ao serviço de Deus, como foi tantas vezes o caso, o que é equivalente a dizer ao serviço dos homens.
As sete mulheres que são todas
Nesta Vénus em chamas há sete figuras principais — Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, Teodora de Constantinopla, Joana d’Arc, Fillide Melandroni, Harriet Tubman e Lúcia de Jesus, popularmente conhecida como Irmã Lúcia. São sete figuraschave para o contar das mulheres do ponto de vista do Ocidente, geografia e espaço intelectual que resulta de uma miscelânea greco-romana, judaico-cristã, democrático-participativa e imperialístico-oportunista, entre outras conjugações. Tudo isto resulta de uma construção levada a cabo ao longo de séculos, tantas vezes com a ajuda do cimento católico apostólico romano e do famoso bestseller literário dividido em duas partes chamadas Antigo Testamento e Novo Testamento. E com a ajuda daquilo que ficou de fora do cânone e do acesso legítimo ao poder, entre evangelhos apócrifos e direitos das mulheres, porque excluir, esconder e, proibir, também é mandar. Neste Vénus em chamas, sete mulheres serão chamadas a testemunhar, mesmo que por via indireta, o que é uma forma tímida de sacudir-lhes o pó do tempo e de libertá-las simbolicamente dos espartilhos que lhes moldaram as vidas; cintas e justilhos morais e físicos que lhes permitiram maior ou menor agência e autonomia, consoante os casos, as épocas, as personalidades. Maria é um arquétipo utilitário de pureza (uma mulher-utensílio a quem Jesus nunca chega a chamar «mãe»), cuja imagem parece ter bebido da Atena clássica. Madalena é uma proscrita ao retardador, vilipendiada 500 anos depois de ter vivido ao lado de Jesus. Teodora foi quase apagada da história, ficando para a posteridade como depravada, bruxa, ilustração do Mal, graças ao relato de um só homem, Procópio. Joana d’Arc foi usada, levada aos píncaros, deixada cair e consumida pelas chamas. Fillide Melandroni ficou oficialmente para memória futura como «cortigiana scandalosa», embora tenha dado rosto a santas do alto panteão católico nas telas de Caravaggio. Harriet Tubman viveu as mazelas físicas e mentais da escravatura, chancelada pelo referido bestseller cristão. Lúcia de Jesus, imaginada vidente, foi feita prisioneira aos 13 anos, sem direito a liberdade. Condicional ou outra qualquer.
Por estas páginas correm igualmente motivos recorrentes, como a importância do fogo — sabedoria e danação, em igual medida —, a importância da Arte para a construção das identidades, o entrelaçar de narrativas e a contaminação de ideias, pois nada nasce do vazio. Muito menos a subalternização das mulheres.
Revisionismo à boleia do digital e uma ideia de luta
Um dos temas do momento é o recrudescer da cólera antimulheres, com especial relevo no mundo digital, mas com todo o potencial de transvase para o dia a dia de carne e osso. Lemos sobre o fenómeno dos incels, sobre o crescimento da chamada «machosfera», vão brotando artigos de fundo e estudos que indicam que a inversão de marcha nos direitos iguais e universais pode estar a meia dúzia de campanhas eleitorais de distância. Homens jovens sentem-se diminuídos, acossados. Tudo isto acontece neste mesmo mundo dito ocidental, que permitiu uma soberania recente a metade da humanidade. Noutras paragens, e por inúmeras razões, entre as quais a maldição da Fé, o caso é ainda mais grave e as cerca de 200 páginas deste volume não conseguiriam abarcar tanta causa e efeito. Um pouco por todo o campo das democracias liberais, cresce o conservadorismo político de feição radical, no qual cabe a ideia de que «as mulheres já foram longe demais». De que as mulheres falam demais. Algumas das mulheres deste Vénus em chamas falaram de menos, e houve sempre alguém que falou por elas, amiúde em termos infames. Aqui contam-se histórias ao redor de apenas sete figuras, mas há séculos que a existência das mulheres, milhões delas, é terreno aberto para todo o género de delírios e desaforos dos homens. As suas vidas — terrenas ou espirituais —, foram e são instrumentalizadas ao sabor das novas ordens e dos sistemas de poder que frequentemente contrariam a nossa natureza, com particular prejuízo para a metade feminina da nossa vaidosa e errática espécie. Este livro traz uma narrativa híbrida, entre reconstituição histórica ficcionada e investigação, tratando de sete mulheres que são todas as mulheres, sujeitas ao poder deles, e cujas existências foram contadas e adulteradas para servir uma narrativa ardilosa que bloqueia com eficácia qualquer tentativa de emancipação coletiva. As histórias reais de Maria, Maria Madalena, Teodora, Fillide, Joana, Harriet e Lúcia refletem a forma como a História e a Arte as apresentaram, representaram e imolaram, tantas vezes despindo-as de qualquer agência ou autoridade sobre si mesmas. E servem como pequena arma de arremesso contra os apelos ao silenciamento delas.
O campo de batalha está aí, é bom que nos preparemos para a luta, com todos os meios ao dispor. Com livros ou com o físico trabalho a sério no ginásio, como é o caso da minha amiga das letras.







