Num mundo cada vez mais digital e uniformizado, as livrarias e livreiros independentes são uma espécie de ilhas do tesouro. Espaços de curadoria literária, trazem recomendações personalizadas a cada leitor e permitem fortalecer um sentimento de comunidade. Assim, assumimos uma missão: dar às livrarias independentes o destaque que merecem, entrevistando um livreiro por mês, pelo país fora. Durante esse mês, os leitores terão descontos exclusivos em todos os nossos livros comprados na livraria em destaque.
Depois de termos visitado a livraria Greta, fomos até ao Porto para descobrir a livraria Flanêur, escondida na Rua Fernandes Costa, na Boavista, gerida pela Cátia e o Arnaldo. Conheçam-nos abaixo, e não hesitem em visitar a livraria – durante o mês de abril, os leitores podem contar com 10% de desconto em qualquer livro da Penguin Random House Portugal comprado na Flanêur.

A livraria Flanêur surge da amizade entre a Cátia e o Arnaldo e do desejo comum de criarem um espaço de liberdade, onde pudessem receber os clientes como velhos conhecidos. Assim abriu, em 2015, enquanto livraria generalista, com um catálogo selecionado para ir ao encontro do gosto pessoal dos livreiros e dos clientes que recebem, mas que vai além das novidades do momento, propondo livros mais antigos que possam surpreender quem a visite.
Como surgiu a Flanêur?
Cátia: Nós éramos livreiros noutra livraria e sonhávamos ter um dia uma livraria nossa. Um sítio que fosse um lugar de liberdade, um lugar construído à nossa medida, de acordo com os nossos gostos, a nossa forma de estar, a nossa forma de sentir, em que conseguíssemos estabelecer de forma livre e verdadeira uma relação com os outros. A Flanêur foi motivada pela nossa amizade e por essa vontade e, este ano, já vai fazer 10 anos!
De onde vem a vossa paixão pelos livros?
Arnaldo: Veio de mim, não veio de mais ninguém… Até porque nem sequer via muitos exemplos de hábitos de leitura à minha volta. E não foi assim tão cedo quanto isso! Mas o facto de já trabalhar em livraria há muitos anos fez com que as coisas se tornassem mais viciantes. Hoje em dia tento controlar um bocadinho mais o vício, tento ler menos para ler melhor.
Cátia: Eu tenho uma avó que sempre gostou muito de livros. Essa avó sempre estimulou muito em mim a leitura. Foi ela que me ensinou a ler, e de vez em quando conseguia comprar-me um livro… Quase sempre coisas nada adequadas à minha idade [risos]. Ela contava muitas histórias também, aquelas histórias mais tradicionais, e outras que inventava. Então pode vir daí, mas também de alguns primos mais velhos que falavam sobre livros de aventuras que liam e eu depois ficava muito curiosa. A determinada altura houve quase um afastamento, ali mais na adolescência. Não deixei de ler, mas também não lia assim tanto. E por acaso, quando o Arnaldo falou da palavra vício, estava precisamente a pensar nisso… Acho que a partir do momento em que comecei a estar mais rodeada de livros, mais vontade passei a ter de ler. Não sei, talvez aguce a curiosidade. Acho que é daí que vem essa paixão.

E qual é aqui na cidade o vosso refúgio de leitura, o esconderijo de leitura preferido?
Arnaldo: Na cidade? Não sei. Só se for no metro. É um facto. Não tenho um sítio, a não ser em casa e no metro, é onde eu leio.
Cátia: Quando nos conhecemos, trabalhávamos em frente a um sítio maravilhoso, que era um café que tinha bicicletas e costumávamos ler aí. Criámos até amizade com a dona do café, que nos deu a nossa primeira bicicleta, para fazermos as entregas dos livros. Esse sítio já não existe, infelizmente, mas era um sítio especial para nós na cidade, gostávamos muito. Agora, já não há assim um sítio onde vamos sempre.
A partir do momento em que comecei a estar mais rodeada de livros, mais vontade passei a ter de ler. Não sei, talvez aguce a curiosidade. Acho que é daí que vem essa paixão.
Quais são os ingredientes que um livro precisa para ser incrível?
Arnaldo: Não vou para um livro com um objetivo determinado. Normalmente tento sempre encontrar alguma coisa que me ajude. Tentar descobrir-me a mim próprio.
Cátia: Acho que é uma questão de empatizar com o livro. Às vezes fico com muita vontade de ler um livro porque acho que me vou identificar com a história, e quando começo a ler, não estou a sentir nada, não crio ligação nenhuma com o livro. E já aconteceu o contrário, de abrir um livro, ler as primeiras linhas e sentir: eu tenho de ficar com este livro! E às vezes são livros tão diferentes entre si… às vezes, isso acontece com a poesia, às vezes acontece com ensaio, às vezes acontece com livros clássicos, outras com livros contemporâneos, que tocam temas que me dizem mais. Por isso, é difícil dizer quais são os ingredientes específicos.
Arnaldo: Nós somos tão flutuantes… Depende muito do momento. Muitas vezes acontece que o mesmo livro não tem a mesma capacidade de nos atrair em alturas diferentes da vida.
O que é ser livreiro independente hoje em dia?
Arnaldo: Nós já tivemos as duas experiências, a de trabalhar numa rede grande de livreiros e, agora, a de estarmos por nossa conta e por conta dos clientes. É bastante diferente, muito mais sereno, muito mais motivante. Mas a grande diferença é realmente podermos receber as pessoas como se fosse a nossa casa, não estamos a receber as pessoas como se fosse a casa de um estranho. E isso faz toda a diferença.
É isso que eu sinto aqui, independentemente dos livros. Já falamos disso muitas vezes, acho que isso é o mais importante, estarmos aqui para receber as pessoas, falar com elas, estar com elas. Depois, vender o livro ou não, depende dela. Não forçamos nada, não somos vendedores: o livro faz o seu trabalho, o cliente faz o seu trabalho. A nossa disposição é cada vez mais para receber bem as pessoas e criar aqui uma relação. O resto vem depois – precisa de vir -, mas é quase a parte menos importante.
Cátia: Sim, é isso, criar espaços de relação com as pessoas. Aquilo que eu sinto é que aqui também ganhei uma comunidade. Ou seja, não somos só um espaço que pode criar comunidade, mas esta também passou a ser a nossa comunidade. E isso em termos individuais, humanos, é mesmo importante. Nós estamos todos, às vezes, muito desenraizados, quase, por tudo – pela gentrificação, pela forma como as nossas sociedades se tornaram tão tecnocratas. Eu moro na periferia e acabo por não ter tempo para criar comunidade na periferia. Aqui, nós não estamos sozinhos, e isso é muito importante, ter essa sensação de que podemos conversar, dizer aquilo que pensamos… Podemos partilhar com os outros e recebemos mesmo muito em retorno.
Acho que isso é o mais importante, estarmos aqui para receber as pessoas, falar com elas, estar com elas. (…) A nossa disposição é cada vez mais para receber bem as pessoas e criar aqui uma relação.
E se não fossem livreiros, o que é que seriam?
Arnaldo: Eu seria varredor de ruas.
Cátia: Eu gostava de ter uma papelaria, adoro papel e canetas. Também era uma coisa bonita.
Arnaldo: Eu não queria ter nada. Queria limpar tudo. [risos]
Cátia: Pensei também que gostava de ser educadora de infância. Poder passar o dia a brincar [risos]. Mas claro que não é só brincar, elas trabalham muito.

Quais são os livros da Penguin que vocês recomendam sempre que podem?
Cátia: Tenho recomendado muitas vezes o Eu Canto e a Montanha Dança. Eu gostei muito desse livro. E as pessoas que leram, acho que a maioria gostou. Também gostei muito do Maus Hábitos, da Alana Portero. Acho que foi um livro mesmo importante ter sido publicado, e ela é muito boa escritora. E A Purga, da Sofi Oksanen. É um livro extraordinário, mas é difícil partilhá-lo. É um livro tão, tão pesado… é realmente um dos livros mais duros que eu já li. Mas eu gostei muito.
Dos infantis eu gosto muito de Eu falo como um rio. É mesmo bonito, quer a ilustração, quer o texto. É tão especial a relação do pai com o filho, e a forma que ele encontra para mostrar ao filho que a diferença dele – que é a gaguez – não importa assim tanto. E que o rio tem aquele ritmo também, tal como ele fala. Esse livro é mesmo especial…
Arnaldo: O Deserto de Tártaros é um dos meus livros favoritos. Se calhar do vosso catálogo até é o meu livro favorito. É um livro sobre coisa nenhuma. Na verdade, não tem propriamente uma relação entre as pessoas, não tem propriamente uma componente romântica. É um retrato sobre a espera, uma metáfora à volta disso, sobre alguém que está à espera que algo aconteça e que não acontece. E a personagem é encantadora.
Mas gosto muito do Fosse. Gosto muito do Marías, do John Fante… adoramos a Olga Tokarczuk. O Laxness…
Cátia: Temos muito carinho pelo Afonso Cruz. Aliás, no início da nossa relação da amizade, está o Afonso Cruz. Porque tu recomendaste-me Para onde vão os guarda-chuvas. E eu disse ‘Que engraçado, esse título’. Na altura não conhecia Afonso Cruz. Tu aconselhaste-me a ler e fiquei a gostar muito dele.
Arnaldo: E depois conhecemo-lo, ele já veio cá muitas vezes. É uma relação que vem desde o início da Flâneur até agora; uma relação que também cresceu com a Flâneur. Em sítios diferentes, e à distância, sem nos vermos muitas vezes, mas mantemos sempre em contacto. Também faz parte um bocadinho daqui da nossa casa.