alba de céspedes

Nas palavras dela: nota da editora

Alba de Céspedes, como quase todos os grandes escritores, puxa o tapete ao leitor, troca-nos as voltas. Antes de O caderno proibido, romance que a trouxe de volta ao nosso tempo, houve Nas palavras dela, um romance simultaneamente clássico e progressista. Poderia descrevê-lo como um grande romance oitocentista, permeado de História e de histórias, mas publicado a meio do século XX e escrito por uma feminista revolucionária, cuja própria vida – além da de escritora – daria um livro de aventuras. Poderia também descrevê-lo como um romance de formação, trazendo Alessandra, a protagonista, para a boca de cena, com os seus sonhos, paixões e desencantos, e a ligação umbilical a uma mãe cuja morte a marca profundamente. Poderia ainda descrevê-lo como um tratado romanesco da luta pela liberdade das mulheres e a igualdade social, do apelo à dissidência política e do elogio a quem dá o peito às balas para demolir regimes autoritários.

Elena Ferrante e Annie Ernaux, entre muitos outros, assumem o lastro de Alba de Céspedes nas suas próprias obras literárias. Ana Cláudia Santos, escritora e tradutora de Céspedes em Portugal, diz, sobre este livro: «Um romance sobre a maior das ilusões, sobre a forma mais drástica de sobrevivência psíquica e sobre o preço a pagar por certos projetos de virtude. Alba de Céspedes é uma grande narradora, e vale a pena ler até ao fim a história de Alessandra, nas palavras dela

Parece difícil que tudo isto se alinhe num livro só, considerado a obra-prima de uma escritora que nasceu em Roma, com ascendência cubana, e se exilou em Paris, onde morreu. Uma escritora que foi também jornalista, que dinamizou um grupo de intelectuais que conspiravam contra o regime, que foi presa mais do que uma vez por atividades antifascistas, que escreveu para cinema, teatro, rádio e televisão. Parece difícil e, no entanto, acontece assim mesmo, Nas palavras dela: «Creio que a história que pretendemos deixar de nós é a razão secreta dos nossos gestos e das nossas palavras; porque não dizer até que é a razão da nossa vida?»

Madalena Alfaia
Editora da Alfaguara

 

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