Vera e Iago: uma leitura de “Análise”, por Anabela Mota Ribeiro

Isto não é uma sessão de análise, mas vou começar como se fosse. Ou seja, por alguns pressupostos da dinâmica analítica. Associação livre, lapsos (ou «atos falhos»). As minhas notas não vêm do divã, no sentido estrito, mas convocam a fala aparentemente insignificante e descosida do inconsciente. E, por isso, vêm também do meu divã, do que está soterrado e por vezes aflora à superfície.

Baptizei este documento de Vera e Iago. Não Iaco, diminutivo do seu nome de família, mas Iago, a personagem da tragédia do ciúme de Shakespeare, aquele odioso que atiçou os demónios de Otelo e, em última instância, foi cúmplice e agente do assassinato de Desdémona.

Não foi por lapso linguístico que baptizei assim este texto. Essa fusão já se tinha operado no modo como interiormente pensei um aspecto assaz interessante do livro da Vera Iaconelli. Um ou mesmo dois. O peso e a memória que estão contidos num nome, e a implicação do sujeito que faz análise no seu processo terapêutico. Uma implicação que o desinstala da carência e do conforto infantil para o deslocar para a responsabilidade, para a assunção da sua quota-parte no latifúndio que é o sofrimento humano.

Que se dane o Humano. A parte do sujeito particular é o que nos interessa e é o que lhe interessa quando, por variadas razões, procura ajuda e se deita no divã.

Uma interrupção: eu, frequentadora do divã desde a mais tenra idade adulta, me confesso. Não seria a pessoa que sou hoje sem a psicanálise. Não escreveria como escrevo, não faria estas perguntas, não poria estas hipóteses. A psicanálise, além do que é meu, abre comportas, traz liberdade. Interessa-me a liberdade de nomear, de encontrar as palavras que são um clarão e que suturam feridas.

 

Vera fala das suas várias análises. Porque vamos sendo outros, e resultam leituras diversas de nós mesmos

 

O método de leitura deste livro foi o seguinte: li-o todos os dias, há semanas, transportei-o comigo na carteira, quieto, extensão de um movimento interior a que podemos chamar gestação. Numa relação de análise, a regularidade e a periodicidade são fundamentais. Bem como a espera e o silêncio. Há muitas coisas que são metabolizadas no mundo aquático dos sonhos, num continente com o qual temos escasso contacto. Então, este é desde logo um dos aspectos mais interessantes da psicanálise: o vagar, a escuta demorada, uma obediência ao tempo num mundo particularmente veloz, fragmentado, superficial.

Só hoje, depois da minha sessão de análise — foi uma coincidência, juro —, articulando no autocarro o que mais tarde sistematizei, fundi os dois nomes: Vera e Iago. Vera faz uma remissão etimológica para verdade. Iago ressoa os nossos primórdios ardilosos, aqueles que queremos esconder, para começar, de nós mesmos.

Isto não é uma sessão de análise, título de um dos podcasts de Vera Iaconelli. Porém, insisto, permito-me seguir este fio incerto para avançar neste labirinto, elaborar a partir de movimentos erráticos. Gosto especialmente da palavra «errar». Pode significar andar sem destino e falhar, faltar ao que é certo.

Vera tem o nome da mãe. Não é incomum que os filhos herdem os nomes próprios dos pais, além do apelido de família. Mais um tijolo para demolir no processo de individuação. Os pais estão sempre a errar, querendo acertar muito. Não há outra modalidade, sabemos, não há «famílias ficha limpa», resume a autora.

Há muitas mães que vêm num nome, porque, ainda que a nossa mãe seja só nossa mãe, ela é muitas. Tijolo dos mais pesados para um filho: chegar a encontrar esta pluralidade, aceitar, por exemplo, a indigestão que é: a mãe é uma mulher que tem desejo e prazer. Sendo certo que todos os filhos sabem que provêm do encontro sexual entre os pais, raramente ousam espreitar pelo buraco da fechadura e imaginar essa mãe e esse pai como sujeitos que têm uma vida sexual que os exclui.

O nome, chamar-se Vera, inscreve de um modo mais profundo esta pessoa numa genealogia feminina, ecoa uma estrutura feita de abandonos e reconstrução, uma mulher em que desaguam outras biografias. Uma mulher que em algum momento se pergunta: porque é que eu fui abandonada? O que é que eu valho? Se eu fosse outra, teria sido enjeitada e entregue a um casal desconhecido na maternidade?

Estas perguntas e outras, como «porque é que eu sofro?», «que sentido faz a minha vida?», são motores e estão latentes. Há circunstâncias em que explodem. A morte de um irmão, saber que o pai tem outra família. Face a estes pedregulhos, as pessoas sentem que é legítimo procurar ajuda. Os outros entenderão que é necessário um acompanhamento.

Parêntesis: a realidade é diferente no Brasil e em Portugal onde, até há pouco, era algo embaraçoso assumir publicamente a condição de paciente. Ninguém teme dizer que faz pilates. Perguntem-se quantas pessoas conhecem que, num jantar, dizem: eu faço psicanálise. Uma, duas, três vezes por semana. Outra dificuldade: quem tem tempo e dinheiro para fazer tanta psicanálise? Se sim, podemos esbarrar em comentários como: «E tens sempre o que lhe dizer?»

 

Vera escreve uma biografia possível e transmissível de quem é, faz um enquadramento teórico, estende ao leitor um espelho. Nós somos aquele.

 

Enxerto aqui uma questão importante: Vera fala das suas várias análises. Porque vamos sendo outros, e resultam leituras diversas de nós mesmos consoante a pessoa com quem… ia dizer: com quem nos deitamos. Isto foi o que ouvi intimamente. Há uma interpretação literal: na análise, estamos deitados, mais próximos da posição do sono e do sonho. Mas, mantendo o decoro: as leituras dependem da relação e do posicionamento teórico do terapeuta.

Também sobre isto noto uma diferença entre Portugal e Brasil: ouvi várias pessoas falar de «análise» para referir uma psicoterapia, frente a frente, mesmo que de inspiração psicanalítica. No livro e na prática clínica de Vera, estamos a falar de descer às fundações.

Nota que ficou solta: continua a rodear o larguíssimo espectro da doença mental um estigma. O que nos devolve ao ponto deixado lá atrás: porque é que as pessoas fazem análise.

É quase por aí que começa este livro. Quase. Eu vou já ao começo, discutindo um ponto que entronca no facto de pertencermos a uma família, a uma narrativa, a uma memória. Antes de ler o livro, eu já conhecia a Vera. Antes mesmo de trombar com a Vera nas pedras de Paraty, eu já conhecia a Vera Iaconelli. Já tinha lido excertos do livro, crónicas, já tinha ouvido podcasts, seguia-a nas redes sociais, havia uma expectativa em torno do seu nome. Nós duas coincidimos no último festival literário de Paraty, eu lançava o meu romance que tem na figura do psicanalista uma personagem importante, e a Vera usava uma carteira de sementes de açaí. Uma carteira que cobicei imensamente, linda, um enunciado de contas que podia ser usado para explicitar uma cadeia genealógica. Foi a pensar nessa carteira que comprei, semanas mais tarde, um colar de sementes de açaí em Belém do Pará.

Mas outra coisa chamou-me nesse encontro: a presença da filha. Vera apresentou-me uma das filhas. Ou seja, ela instantaneamente ficou mãe e filha, psicanalista e analisanda, mulher doutorada e coquete, um sorriso luminoso e um discurso sobre a dor.

Este longo excurso, que ainda prossegue, antes do diálogo, já aborda algumas questões sobre as quais se ergue esta casa. Isto é: quando é que começamos a ser, quando é que nos começamos a conhecer, quando é que conquistamos a capacidade de nos auscultar, como somos percepcionados, a partir de que sementes somos germinados.

Análise — Notas do divã. E eis que me sai um lapso: escrevi vida e não divã. Análise começa com as obras de uma casa. Uma metáfora poderosa para nos preparar para o que aí vem. Futuro, empenhamento, uma projecção que implica desmoronar, dar tempo ao tempo, reconstruir, identificar as nossas colunas e colinas.

O questionamento desde a primeira página faz-se de certeza e revisão. «Comecei minha primeira análise porque meu irmão havia morrido, meu pai era alcoólatra, minha mãe era submissa a ele e havíamos sido despejados. Não.» Frases seguintes: «Porque eu tinha uma profunda identificação com essa mãe… […] Não.» Este «não» vigoroso, com ponto final, é mais ponto e vírgula, reticências. Corresponde a uma abertura, uma brecha para a reconfiguração, pelo menos, para a recompreensão de si mesmo.

Mas outra coisa, claro, nos interpela nesta frase. Cada uma das orações parece justificar o início de uma relação analítica. Embora possamos questionar qual delas detona este movimento, como se faz a concatenação destes pesos. O que a mim me toma é esta ser a primeira análise. De já querermos saber como foi a segunda e a terceira, o que leva uma pessoa a fazer a segunda e a terceira, o que se extrai de cada uma delas. Em suma, como vamos fazendo o caminho, ligando as contas do açaí. Que foi semente, fruto ingerido, processado, salvífico, núcleo escuro e abandonado, recuperado às mãos da designer Flávia Aranha, afagado, tornado branco como uma pérola, precioso, parte de uma forma nova.

Vera escreve uma biografia possível e transmissível de quem é, faz um enquadramento teórico, estende ao leitor um espelho. Nós somos aquele. Procurando bem, existe algures uma identificação com uma mãe submissa, uma compreensão do feminino à luz de uma sociedade patriarcal e com desigualdades estruturais. E Vera escreve com uma mão segura.

Novo lapso, este meu antigo e inultrapassável: queria escrever mão, escrevi mãe. Aprendi com ela um aforismo de Marguerite Duras: «Só a escrita é mais forte que a mãe.»

Vera escreve com uma verdade que, poeticamente, vem com o nome, mas que só se revolve, depois de muitos sintomas, quando fazemos a anatomia do trauma e nos encontramos com o clandestino que viaja connosco. O Iago / Iaco que nos boicota o caminho. O Iago de Shakespeare acenou o lenço da intriga para suscitar a dúvida (seria Desdémona adúltera?). Outro Iago, o de Machado de Assis, tinha no seu próprio nome esta duplicidade, nervo da escrita de Vera Iaconelli: em Dom Casmurro, o autor das memórias chama-se Bento Santiago — Sant-Iago. No seu seio, já estava tudo.

Está sempre. Como no apelido de Vera: um pai que bebe, que se mede com o irmão, que tem uma família fora do casamento (não uma amante, mas uma família), um pai cheio de defeitos, que se odeia. E se ama muito, também.

 

por Anabela Mota Ribeiro

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