Katie Kitamura é uma daquelas escritoras em que a máxima contenção não colide com um imaginário em estado de plena ebulição. Arrisco dizer que neste romance não há uma só palavra a mais. E, contudo, o paradoxo é o motor da narrativa, as personagens são dúplices, quase nenhuma cena está desprovida de enigma. É também por isto, mas não só, que Audição se revela uma leitura viciante – de cada vez que julgamos ter desatado um nó, a trama, afinal, torna-se mais impermeável. Não opaca, exasperante ou artificiosa: magnética.
Este será o romance de consagração de Katie Kitamura: foi finalista do Booker Prize e do National Book Critics Circle Award; é finalista do Women’s Prize for Fiction; considerado um dos melhores romances de 2025 por inúmeros meios (Washington Post, New Yorker, Time, Los Angeles Times, Guardian, Esquire, Vogue, NPR, The New York Public Library). Há razões distintas para isto. Uma das mais fortes é o diálogo desta narrativa com toda uma tradição literária moderna e modernista (Wilde, Tchékhov, Beckett, Plath), reconfigurada a partir de uma perspectiva desconcertantemente contemporânea. Um diálogo entre passado, presente e futuro, próprio da melhor literatura. Mas Audição poderá ser também tomado como o estudo para o longo monólogo de uma mulher, recoberto que está de memórias e de uma solidão dificilmente partilháveis pela protagonista a não ser consigo mesma. Mais ainda: é um romance-artifício, distintamente visual, que conta a vida de uma actriz fora do palco sem que ela nunca perca de vista que está perante uma plateia de espectadores (leitores). Três hipóteses de leitura condensadas assim, por exemplo: «Era cada vez mais frequente sentir-me surpreendida com a pessoa que via no espelho, não eram as rugas em redor da boca nem os olhos encovados, era o desfasamento no reconhecimento o que mais me perturbava, o breve instante em que olhava para o espelho e não sabia quem era.»
Não se esgotam aqui, as maneiras de interpretar este livro. O jogo é mais complexo, porque vemos também uma escritora em domínio desta chave lúdica – tanto quanto nos desconcerta com a encenação vívida do mundo em que nos coube viver e, sobretudo, dos mundos que imaginamos possíveis.
MADALENA ALFAIA
Editora da Alfaguara
FINALISTA: Booker Prize | Women’s Prize for Fiction | National Book Critics Circle Award | Joyce Carol Oates Prize
UM DOS MELHORES LIVROS DO ANO: Washington Post | New Yorker | Time | Los Angeles Times | Guardian | Esquire | Vogue | NPR | The New York Public Library







