A cozinheira do ditador: nota de editor

Afonso Cruz é um daqueles autores que se vão reinventando a cada volta do caminho e que nunca deixam de surpreender os seus leitores. Tão depressa traz a lume uma enciclopédia, como uma novela-ensaio, um livro infantojuvenil com ilustrações suas, ou um romance sobre uma cozinheira e um ditador. Que ele andava a cozinhar alguma, era mais do que certo, até porque, no ano passado, em jeito de amouse bouche, mencionara um manuscrito quase terminado sobre uma chef de cozinha feita prisioneira por um ditador.

Quando nos chegou às mãos, já prato principal, era muito mais do que isso. Às primeiras páginas, rendi-me às evidências. Afonso Cruz não apresentava um prato gourmet, desses que servem para enfeitar mesas, em doses reduzidas, e por vezes artificiais, que não alimentam ninguém; era prato-conforto, daqueles que, no fim, pedem um cigarro. E saboreei-o, como se saboreia a boa literatura.

Sofia Fraga
Editora da Companhia das Letras

 

 

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