«A hiperpolítica é, acima de tudo, um tipo de política que se dá bem com o mercado, na forma como no conteúdo.»
Será a hiperpolítica um mal-estar liberal ocidental específico ou um problema estrutural global partilhado?
O livro foi escrito especificamente sobre o Ocidente, não por chauvinismo, mas antes por uma limitação intelectual: o meu domínio linguístico e cultural de muitos contextos não-ocidentais é simplesmente demasiado frágil para emitir pronunciamentos seguros sobre eles. No entanto, é óbvio que as raízes da hiperpolítica ocidental são intrinsecamente globais, quer se trate do colapso do crédito de 2008 ou da crescente digitalização da esfera pública. Poder-se-ia facilmente traçar genealogias semelhantes para as zonas pós-soviéticas, para o Irão ou para a China, onde a discussão sobre uma “política despolitizada” era comum nos anos 2000, e onde os movimentos de protesto também falharam em alcançar mudanças duradouras. Não é a minha tarefa, mas espero que isso torne o livro menos exclusivamente ocidental.
A precarização do local de trabalho, a dissolução entre o trabalho e a vida, a aceleração do tempo e o desenraizamento do espaço — temas que atravessam a hiperpolítica. A resposta passa pela lentidão e o planeamento económico clássico?
Este é, de facto, um apelo ao que alguns teóricos franceses cunharam como “política mais lenta” (slower politics), numa era em que, talvez paradoxalmente, a própria concatenação de crises parece exigir uma resposta rápida e instantânea. A política de massas no século XX tinha uma temporalidade muito mais virada para o longo prazo do que o ciclo fortemente contraído, ou time crunch, a que nos habituámos na era de Trump. Não nego que a humanidade precise de ter pressa em 2026, particularmente no que diz respeito à crise climática, mas é também claro que as organizações mais consistentes no combate à mesma são instituições com planos de longo prazo (o Partido Comunista Chinês). Eles são, efetivamente, herdeiros do partido de massas de Marx e Lenine e continuam a elaborar planos ou diretrizes quinquenais. Não é necessário celebrar isso ideologicamente, mas é um facto.
Menciona uma sucessão de movimentos sociais e políticos que se dissolvem sem memória de alguma vez terem existido, esmagados pela hiperpolítica. As oligarquias neofascistas, contudo, parecem prosperar neste ambiente. Será o fascismo o resultado inevitável da hiperpolítica?
Há dois factos fundamentais que convém aqui frisar. A suscetibilidade do campo político das direitas à hiperpolítica é estruturalmente inferior ao das esquerdas por duas razões intuitivas. Em primeiro lugar, um patamar menos exigente de sucesso político, ele próprio relacionado com o facto de ser o “Partido da Ordem” (como Marx o designou), que procura estabilizar ou preservar um conjunto de relações sociais em vez de as reformular. Em segundo lugar, e de forma relacionada, o acesso a fundos de doadores privados, libertando-os da dependência das quotas de filiação, algo que historicamente debilitou a esquerda. Estes fatores permitem e restringem simultaneamente o renascimento de uma política de massas à direita: o dinheiro privado está facilmente disponível, mas este também atrasa a construção de uma sociedade civil robusta; por outro lado, a base social da direita simplesmente é menos exigente. Daí a divergência de caminhos.





