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«As crianças não mudam mentalidades — elas criam-nas»

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Mário Coxilha, chefe da Companhia de Bombeiros Sapadores de Setúbal, especializado em mergulho, formador de combate a incêndios, transferiu para este livro toda a sua experiência real em aprendizagem simples ajudando os mais novos a perceber os perigos, compreender o valor da coragem, da entreajuda e do cuidar do próximo. Com ilustrações de Daniel Wu, SOS pequenos heróis, grandes ações é um guia para agir com calma e segurança quando algo corre mal.

 

Estamos a viver cada vez mais sismos, tempestades, perigos. Foi por causa disso que resolveu escrever este livro?

Não foi apenas por estarmos a viver cada vez mais sismos ou tempestades — foi sobretudo por causa das pessoas. Os riscos sempre existiram, mas apesar de hoje haver mais informação, paradoxalmente, muitas vezes as pessoas estão menos preparadas e sentem mais medo devido ao excesso de informação. Este livro nasce dessa tensão: pegar no medo e transformá-lo em confiança, trocar a dúvida por ação. Não quis escrever sobre catástrofes. Quis escrever sobre aquilo que realmente faz a diferença — a capacidade que existe em cada um de nós, até nas crianças, de compreender, decidir e agir quando mais importa.

 

Até que ponto este livro pode sensibilizar ou mudar a mentalidade dos mais pequenos?

As crianças não mudam mentalidades — elas criam-nas. Quando aprendem cedo que segurança não é medo, mas sim consciência, passam a olhar para o mundo com outro tipo de atenção. Este livro não ensina só “o que fazer”; ensina “como pensar” em situações de risco. E isso é estrutural. Uma criança que cresce com esta lógica torna-se um adulto mais autónomo, mais responsável a nível de preparação e menos dependente do improviso.

«O saber fazer e a calma não surge no momento da emergência — constrói-se antes. É isso que este livro procura fazer.»

 

Gostaria de levar este livro às escolas? Como é que estes temas podem ser trabalhados por alunos e professores?

Sem dúvida que gostaria de visitar escolas, acho que será nas escolas que este livro vai ganhar vida. Mas não como leitura passiva. Estes temas podem ser trabalhados por alunos e professores, mas devem existir práticas que podem ser: simulações, jogos de decisão, pequenos cenários realistas. Há uma tendência a ensinar segurança como teoria decorada. O que funciona é treinar comportamento. Professores podem usar o livro como ponto de partida para exercícios simples: “E se acontecesse agora, o que fazias?” — e deixar os alunos pensar, discutir e experimentar respostas.

 

Nós somos muito um povo da teoria. Que na teoria sabe tudo, mas a prática é diferente. Se houvesse um grande sismo, por exemplo, estaríamos preparados? 

Sinceramente acho que não. Sabemos o que fazer, mas não treinamos o suficiente para reagir bem. Em situações reais, o conhecimento não chega— é necessário saber como fazer. É a ganhar esse hábito que se constrói com repetição. A maioria das pessoas, perante um evento crítico, hesita ou bloqueia nos primeiros segundos. E esses segundos podem ser decisivos. O livro tenta precisamente encurtar essa distância entre saber e executar.

 

Todos conhecemos a história do Rodrigo, o menino de 9 anos que salvou a mãe quando ligou para o 112. Acha que há mais Rodrigos por aí ou, por norma, as crianças desta idade não saberiam o que fazer? 

Possivelmente há muitos “Rodrigos” — mas não são falados. A capacidade existe, falta ativação. Uma criança de 9 anos consegue tomar decisões eficazes se tiver referências claras e simples. O problema é que muitas nunca foram expostas a essas referências. Não é uma questão de idade, é uma questão de preparação. Quando ensinamos corretamente, as crianças surpreendem — muitas vezes mais do que os adultos.

 

Que mensagem de calma e segurança pode deixar às crianças e aos pais, quando parece que vivemos rodeados de riscos?

O risco faz parte do mundo. Costumo dizer: «se tu não vês o perigo, o perigo és tu». A verdadeira segurança não está em evitar tudo, mas em saber reconhecer esse perigo e saber lidar com o que não controlamos.   Para as crianças: «Tu és mais capaz do que pensas.» Para os pais: «Preparar não é assustar, criar medos — é ensinar e proteger com inteligência.» O saber fazer e a calma não surge no momento da emergência — constrói-se antes. É isso que este livro procura fazer.

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