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Catarina Alves de Sousa: «Gostava que cada criança se sentisse livre para falar da sua realidade familiar, independentemente da forma que esta assume»

, na categoria: Booksmile, Entrevistas

Natural da cidade do Porto, Catarina Alves de Sousa é fascinada pelo universo das lendas, dos símbolos e das tradições antigas, em especial a cultura celta, o folclore irlandês e escocês e a sua ligação à natureza. Estudou Comunicação e Cultura e, mais tarde, Jornalismo, porque passou grande parte da vida a tentar perceber melhor as histórias «as que acontecem à nossa volta, as que contamos sobre nós próprios e aquelas que inventamos para dar sentido ao que sentimos», realça.

Acredita que as ideias não devem ficar fechadas no papel. Devem ganhar corpo, voz, espaço, conversa, chávena de café e gargalhadas. E acredita que foi por isso que, juntamente com o meu marido, criou a Story Owl, uma livraria-café e centro cultural em Torres Vedras, criada para ser mais do que uma livraria. A Fábrica de Mães é o seu primeiro livro, o terceiro da série O Poço das Histórias. Uma coleção que traz contos, de novas autoras e ilustradoras nacionais, recheados de imaginação, memórias, tradições, sonhos e sentidos. O Velho Piano e Um Desafio com Arte são os outros dois livros publicados em agosto de 2025.

O que te levou a escrever este livro? E porquê este tema, da personagem principal querer uma mãe perfeita, sem regras e nãos? Na tua infância passaste por isto, de querer outra mãe?
Não me lembro de, em algum momento, ter pensado que queria outra mãe, mas lembro-me de ter pensado várias vezes que alguns castigos eram injustos (como qualquer criança). Porém, ao contrário da Violeta, nunca tive problemas em fazer os trabalhos de casa.

O livro aborda sentimentos como a saudade e a gratidão. Qual é o maior desafio em escrever sobre temas para crianças?
O maior desafio de escrever sobre temas para crianças talvez seja perceber se o tema se adequa. Se, tantos anos passados desde a infância, os assuntos que me amedrontavam ou fascinavam ainda ressoam junto das crianças da nova geração.

O que os pequenos leitores podem esperar deste livro?
Em A Fábrica de Mães, os pequenos leitores podem esperar muita magia, mas, acima de tudo, uma revelação que pode — e deve — acompanhá-los a vida toda: que, às vezes, aquilo que achamos que queremos pode não ser o melhor para nós.

 

Acho que uma experiência engraçada será retirar o caráter solitário associado à leitura. Criar grupos de leitura para crianças ou entre crianças, para que discutam aquilo que leem.

 

No final do livro há uma receita de um bolo de laranja. Esta receita tem algum significado na tua vida, na tua infância?
A do bolo de laranja em si não, embora goste, mas foi inspirada noutro bolo que a minha mãe fazia e que era o meu favorito quando era criança: o bolo de iogurte. Algo muito simples, mas carregado de amor e significado, pois adorava ajudar a minha mãe a fazê-lo (e a rapar a tigela, claro!). Apesar de gostar muito desse bolo (ainda hoje), não era de todo sobre o bolo em si: era sobre proximidade, sobre a intimidade de criarmos algo juntas. E sim, o aroma com que enchia a casa contribuía muito para a sensação de aconchego deste momento.

Numa época em que os miúdos passam muito tempo nos ecrãs, como é que se pode inverter isso e começarem a gostar mais de ler?
A resposta óbvia será a de contar com os pais e adultos à volta como exemplos. Impacta sempre uma criança quando vê os adultos a lerem de forma frequente, como algo que faz mesmo parte das suas rotinas. Depois, lerem para as crianças ou em conjunto com as crianças ajuda a cimentar esse gosto e esse ritual.
Pessoalmente, acho que uma experiência engraçada será retirar o caráter solitário associado à leitura. Criar grupos de leitura para crianças ou entre crianças, para que discutam aquilo que leem. Na Story Owl, a minha livraria-café, temos um clube de leitura para crianças chamado Corujinhas com Histórias, que serve precisamente esse propósito. Todos os meses, as crianças participantes trazem as suas últimas leituras e falam delas em conjunto. É enternecedor vê-las a mostrar orgulhosamente o que leram.

Como poderá este livro ser trabalhado nas escolas por professores e alunos?
Acredito que este livro pode ser um excelente ponto de partida para trabalhar, em contexto escolar, temas como a diversidade familiar, o amor, a empatia, a aceitação e a importância de valorizarmos as pessoas pelas suas qualidades, mas também pelas suas imperfeições. A partir da leitura, os professores podem promover conversas sobre aquilo que torna cada família única, desconstruindo a ideia de que existe uma mãe perfeita ou uma fórmula certa para amar e cuidar.
A história também pode abrir espaço para refletir sobre as expectativas que colocamos nos outros e sobre a ideia de que não precisamos de ser perfeitos para sermos suficientes.
Acima de tudo, gostava que A Fábrica de Mães ajudasse a criar momentos de partilha, em que cada criança se sentisse livre para falar da sua realidade familiar, independentemente da forma que essa família assume. Porque, no fundo, não existem famílias feitas a partir de uma receita única. E é precisamente isso que as torna tão especiais. No final do livro, encontram algumas atividades nesse sentido!

Como foi o processo de trabalhar com a ilustradora Sofia Cardoso?
Foi maravilhoso! Não conhecia a Sofia; escolhi-a pelo estilo de ilustração, pois era algo muito próximo daquilo que imaginei para A Fábrica de Mães. E como a comunicação é, como em tudo, a chave, os poucos pedidos de alteração que fiz foram recebidos com muita compreensão da parte da Sofia. Trabalhar em conjunto foi, para mim, um processo facílimo!

 

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