A Nuvem de Letras continua a publicar a obra de Olivier Tallec, autor de títulos emblemáticos como Esta árvore é minha ou Já não quero ser esquilo!. A chegada às livrarias de À Espera dos Bárbaros, uma adaptação de um poema do poeta grego Konstandinos Kaváfis, é o pretexto para conhecermos melhor este reconhecido autor e ilustrador francês de 55 anos, que acumula prémios e distinções e já publicou mais de uma centena de livros.
As tuas histórias partem muitas vezes de uma ideia simples – Esta árvore é minha, Já não quero ser esquilo – que se torna um verdadeiro laboratório de pensamento. Como surgem estas ideias?
Tudo começa com o desejo de abordar um conceito: a morte, o rumor, a guerra ou amizade, por exemplo. Isto pode surgir a partir de uma imagem ou frase que capta a minha atenção. O arranque da história alimenta-se de memórias, leituras, imagens, observações, desenhos preparatórios. À medida que o enredo se desenvolve, vou eliminando ideias, ilustrações. As memórias de infância são matéria de inspiração importante, mas não podem ser suficientes.
Uma primeira ideia é enriquecida com outras temáticas. Por exemplo, o ponto de partida de À Espera dos Bárbaros, é um poema de Konstandinos Kaváfis. Mas este poema, complexo, não poderia constituir a única estrutura do álbum. Juntam-se, então, questões ligadas à infância, como a espera. Nesta história, quando mais a espera se prolonga, mais o medo dá lugar à impaciência. Os momentos importantes do dia de uma criança (meio-dia, quatro horas, a hora de dormir, etc.) também dão ritmo à história.
Punhas muitas questões quando eras criança?
Sim, e ainda ponho porque não tenho sempre respostas: será que a luzinha do frigorífico se apaga mesmo quando fechamos a porta? Porque é que os biscoitos duros ficam moles e os moles acabam por ficar duros? E qual era o nome do Capitão Gancho antes de perder a mão?
O desenho tem um papel chave nas tuas histórias. Como trabalhas a sugestão através da imagem?
No álbum, a história vem primeiro e deve ser concisa. Contudo, ela também passa pelo desenho. A ilustração e a escrita funcionam como testemunhos numa corrida de estafetas. A expressividade de um olhar, a atitude de uma personagem permitem essa concisão que o álbum exige porque podem dizer muito sem uma única palavra.
Silêncios, elipses, finais abertos… demonstras ter muita confiança no leitor. É uma forma de convidar cada um a refletir ao seu próprio ritmo?
Adoro a frase de Hemingway que diz: «É possível omitir qualquer parte de uma história, na condição de que o autor assim tenha decidido. O leitor ganhará em emoção o que perdeu em narração.» É muito importante trabalhar os silêncios, as elipses, e desenhar as ações que se passam imediatamente antes ou depois daquilo que lemos, com ligeiro desfasamento.
O álbum permite tudo isso porque implica uma leitura lenta, já que propõe um formato curto e um ritmo de leitura que autoriza que nos detenhamos numa imagem para a observar e decifrar. Na banda desenhada, por exemplo, uma tira importa em relação à que vem antes ou depois. No álbum trata-se, ao contrário, de nos determos e voltarmos atrás. É frequente lermos a mesma história às crianças muitas vezes, e creio que é preciso confiar nelas para descobrirem aquilo que, por vezes, escapa aos adultos e ao autor.
Também acredito muito nos múltiplos níveis de leitura de uma imagem. Adoro imaginar que as crianças podem interrogar-se mais tarde e, porque não, encontrar o seu próprio final para uma história. Não é grave se o jovem leitor não compreende tudo de imediato.






