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Giuseppe Sofo: «Já recolhi mais de 500 medos de todos os tipos»

, na categoria: Entrevistas, Lilliput

Em maio teremos o prazer de receber Giuseppe Sofo em Lisboa, para uma sessão de apresentação na Piena, livraria italiana, do seu primeiro livro publicado em Portugal, Arquivo dos medos (in)úteis, ilustrado por Pauline Cremer. Em jeito de aperitivo para esse encontro, ficamos a saber que Giuseppe adora dizer duas coisas ao mesmo tempo. Por isso tem uma série de livros em que usa os parêntesis para brincar aos contrários.

 

Podes falar-nos um pouco sobre ti e como te tornaste escritor de livros infantis?
Olá, o meu nome é Giuseppe, sou de Itália, mas atualmente vivo em Berlim com o meu filho, o meu gato vermelho e a minha mulher. Sempre escrevi, desde criança, e nos últimos anos apercebi-me que lia cada vez mais livros ilustrados, por isso comecei a imaginar livros ilustrados que gostaria de escrever. Há dez anos, vivi em Berlim durante um curto período e conheci Hanna Posiege, uma ilustradora, e Barbara Gizzi e Marco Ghidelli, os editores da Raum Italic, que publica livros ilustrados. Apresentei-lhes todas as minhas ideias e ainda me lembro de a Barbara me dizer: “Sente-se e relaxe, vamos publicá-las todas”. Já publicámos quatro e o quinto está a caminho!

 

Qual é a história por trás deste livro?

A história por detrás deste livro é muito simples: tenho medo de muitas, muitas, muitas coisas. E as pessoas sempre gozaram comigo por isso, tanto quando era criança como, ainda mais agora que sou adulto. Mas acho isso um disparate, porque se há uma coisa que todos temos em comum é que todos temos medos. Percebi que a maioria dos livros sobre o medo para crianças tenta provar-lhes que não têm de ter medo. Mas, por um lado, isso não é possível e, por outro, nem acho que seja uma boa mensagem. Pode ter medo, o quanto quiser, apenas para aprender a lidar com os seus medos e perceber quando é altura de deixar um deles para trás.

 

Arquivo dos medos (in)úteis é um título curioso. O que são medos inúteis?

Na verdade, não é “inútil”, mas sim “(in)útil”. Nesta série de livros, brinco sempre com os parêntesis no título para dizer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, os medos (in)úteis são aqueles que as outras pessoas consideram inúteis, ou sem valor, mas que na verdade são muito úteis para compreender o que se gosta e o que não se gosta, a pessoa que se é e a pessoa em que se quer tornar. Aprendi tantas coisas com os meus medos que acho que nunca conseguiria viver sem eles, e nenhum deles é realmente inútil.

 

Que medo preferes, se é que isto se pergunta?

Se há algo aqui que eu acho definitivamente que é peculiarmente meu, é o “medo de setembro”, quando tudo recomeça (escola, trabalho, campeonato de futebol, aulas de educação física), mas a tua mente ainda está a pensar nas férias, no mar, na areia, e não está minimamente preparada para voltar a tudo isso. Acho que ainda não tinha um nome para isto, mas quem é que não o sente?

 

E de que medo nem queres ouvir falar?

Se querem saber o que mais me assusta, é com certeza o “medo de perder aqueles que amo”. Mas, com o tempo, aprendemos que quando amamos alguém, essa pessoa estará sempre connosco, independentemente do que aconteça.

 

Há medos que vêm por bem?

Sim, como disse, todos os medos nos ensinam algo sobre nós próprios, e alguns deles são passos importantes no crescimento pessoal. Todos nascemos com dois medos: o medo de ruídos fortes e o medo de cair. Ambos são essenciais para a nossa sobrevivência: é por causa destes dois medos que fugimos de um possível perigo quando ouvimos um barulho que nos assusta ou que evitamos situações em que poderíamos cair de um lugar alto. Depois, quando um bebé se torna criança, começa a temer ficar longe dos pais. Isto mostra que a criança ama os pais e, ao mesmo tempo, mostra que se está a tornar mais independente deles. Com o tempo, os nossos medos mudam, deixamos alguns para trás porque os ultrapassamos, enquanto outros permanecem e outros surgem. Mas todos eles, se os ouvirmos com atenção, podem dizer-nos algo sobre nós próprios.

 

Quais são os medos com que as crianças mais se identificam?

A maioria dos medos deste livro são meus, mas alguns deles vêm de workshops que realizei com crianças em escolas primárias em Conversano, Itália, durante o festival Lectorinfabula: um deles é o medo da chuva, mas penso que foi apenas porque estava a chover nesse dia, e as crianças são muito mais capazes do que os adultos de se concentrarem no presente. A maioria delas tinha medo de aranhas, mas, sem dúvida, o medo que se destaca sempre quando pergunto às crianças é o medo do escuro. E eu compreendo-as muito bem!

 

Nas apresentações que fazes pedes ao público que desenhe os seus medos. O que tem resultado dai? Há um outro livro a caminho?

Sim, gosto sempre de incluir os leitores no processo de criação do livro, ou de continuar a leitura em casa. Já recolhi mais de 500 medos de todos os tipos ao longo das oficinas e com as crianças que me enviaram os seus, e espero recolher mais alguns em Lisboa, durante a apresentação na Piena. O que as crianças precisam de saber é que também recebo muitos medos de adultos, porque geralmente eles não se apercebem, mas os adultos também têm muitos medos, por vezes até mais e maiores do que as crianças. Só que os escondem melhor. Vamos abrir em breve uma conta no Instagram com a maioria destes receios; podem procurar por @archiviodellepaureinutili. E sim, há outro livro a caminho, Biblioteca dei libri (im)possibili” [Biblioteca dos Livros (Im)Possíveis]. É o quinto e, provavelmente, último livro desta série, que de alguma forma resume todos os livros impossíveis que temos vindo a fazer ao longo destes anos.
A ideia é que entres numa biblioteca que só tem livros que nunca foram escritos e, ao entrares numa sala, começam a aparecer os livros que estás a imaginar. Depois tens livros como: “Manual do Erro Perfeito”, “Manual de Instruções das Emoções”, “Livro de Receitas Vegan para Plantas Carnívoras”, “Curso de Piano para Gatos”, “Atlas de Cidades Nunca Existiram”, “Catálogo das Cores Ausentes em Filmes Preto e Branco”, e podes encontrar escondidos algures também os outros livros da nossa série: “Manual de (Des)educação para Adultos”, “Manual para Mágicos Não-Mágicos”, “Atlas de Pequenas Viagens” e, claro, “Arquivo de Medos (In)úteis”. Quem sabe, talvez este novo livro ou os outros da série também estejam disponíveis em português em breve?

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