Para leitores portugueses que talvez não estejam tão familiarizados com a história da ETA, como apresentaria o contexto de As feras e a figura de Idoia López Riaño?
A ETA nasceu em 1958, em pleno franquismo, como um movimento político nacionalista, revolucionário e socialista, que defendia a independência do País Basco. Anos mais tarde, os seus membros decidiram passar à luta armada, tornando-se uma organização terrorista que matou 826 pessoas entre 1968 e 2011, sem contar os milhares de feridos, os danos materiais, os sequestros, as extorsões, etc. A ETA dissolveu-se em 2018. Teve, portanto, uma longa existência, que atravessou o franquismo e a democracia e que, em grande medida, coincide com a minha própria vida. Espanhóis de várias gerações convivemos, contra a nossa vontade, com a violência da ETA, inicialmente dirigida às forças armadas e de segurança do Estado e, com o tempo, também a cargos políticos, jornalistas, empresários e a todos aqueles desgraçados que tiveram a má sorte de se encontrar no momento e no lugar errados, entre eles 21 crianças.
A ação de As feras decorre no País Basco (Euskadi), nos anos 80 do século passado, a época de maior atividade da ETA, que só em 1980 assassinou cem pessoas, uma a cada 60 horas.
Como decide começar a escrever sobre uma figura como Idoia López Riaño?
Deparei-me por acaso com a figura de Idoia López Riaño, a Tigresa, num artigo do The Times, onde era descrita como uma terrorista da ETA sanguinária, psicopata, vaidosa e belíssima — uma combinação de adjetivos intrigante. Eu não me lembrava dela, embora seja um pouco mais nova do que eu e tenha desenvolvido a sua espetacular carreira criminosa na época da minha juventude: enquanto eu saía à noite, ela colocava bombas; aos 23 anos, já tinha participado em 23 assassinatos. Os anos 80 em Espanha foram simultaneamente os nossos anos de chumbo e os da Movida madrilena — não poderia haver maior contradição: sangue e festa. À medida que investigava, descobri que Idoia encarnava melhor do que ninguém essa contradição: uma terrorista fanática que frequentava discotecas e se envolvia com polícias, uma mulher obcecada com a sua aparência e implacável a matar. Era essa a lenda construída à sua volta.
Nunca tinha pensado escrever sobre a ETA, mas a figura de Idoia intrigou-me. Quis perceber o que havia de verdade nessa lenda. O impulso inicial foi, portanto, a curiosidade, que é sempre o motor dos meus romances. Se nos meus livros anteriores escolhi como protagonistas mulheres jovens de vida breve e trágica, em As feras quis aprofundar a psicologia da figura oposta: a autora da violência que mata pela pátria, heroína para os seus, assassina para todos os outros.

O que lhe interessou enquanto escritora, a tentativa de compreender uma figura associada à violência extrema?
Não escrevo crónica nem reportagem, muito menos livros de História — faço ficção. Uma ficção híbrida, baseada em parte em personagens e factos reais, mas a minha intenção é sempre literária.
Foi um impulso mais literário, histórico ou ambos?
Faço o que posso! Acontece que os períodos históricos que abordo nos meus romances são, em grande medida, contemporâneos, pertencem à história recente do final do século XX. Por isso, tenho de ser muito rigorosa com os factos reais. Se escrevesse sobre os fenícios, poderia inventar muita coisa — não haveria o risco de Dido voltar à vida para me apontar imprecisões ou anacronismos. Já Idoia López Riaño e outras personagens reais de As feras continuam vivas e poderiam fazê-lo. Por isso, procuro documentar-me a fundo antes de começar a escrever.
Enquanto investigo, quase sem dar conta, vou construindo na minha mente uma trama paralela, puramente ficcional, que se entrelaça com a história real — que funciona como a urdidura — e assim vou tecendo o romance. Se a urdidura é rígida, a trama é flexível; quando dou vida às personagens fictícias, tenho total liberdade.
Acredita que a literatura pode ajudar a compreender o mal sem o justificar?
Seria preciso um tratado de filosofia para responder a essa pergunta. Teríamos de perguntar: o que é o mal? Existe o Mal em abstrato, com maiúscula, ou apenas podemos falar de atos e pensamentos maus em oposição aos bons? A religião tem resposta: o Mal é o demónio e o Bem é Deus, o que é muito reconfortante, mas infelizmente não sou religiosa.
Também não sou uma intelectual, apenas uma romancista, e enquanto tal procuro evitar o maniqueísmo, que é reconfortante mas enganador. Teria sido muito fácil retratar Idoia como um monstro, mas a mim interessa-me mostrar a pessoa, o ser humano que comete atos monstruosos.
Antón Tchékhov escreveu um conto sobre ladrões de cavalos e alguns leitores criticaram a sua neutralidade. Ele respondeu: “Reprova-me a minha objetividade e chama-lhe indiferença perante o bem e o mal… gostaria que eu dissesse: ‘roubar cavalos é mau’. Mas isso já se sabe há muito tempo, sem que eu o diga. Que os julguem os tribunais; a mim compete-me mostrá-los como são.” Subscrevo as suas palavras.
Para quem está a descobrir agora a sua obra, que temas ou preocupações atravessam os seus livros e que também estão presentes em As feras?
No seu discurso de aceitação do Nobel, William Faulkner disse que explorar a contradição do coração humano consigo próprio é a essência da narrativa — não poderia estar mais de acordo. No meu caso, há obsessões recorrentes: os conflitos familiares, a adolescência, o suicídio e, em várias obras (entre elas As feras), os estragos do orgulho geográfico ou do nacionalismo. Não sei porquê, mas volto sempre a estes temas.

Qual foi o maior desafio ao escrever esta obra?
Os desafios foram vários: dar vozes diferenciadas e características aos três narradores, harmonizar a parte histórica com a trama fictícia e evitar que a narração dos factos reais parecesse uma reportagem jornalística — algo que tentei resolver dando voz e opinião a Idoia López Riaño, uma das protagonistas.
O que gostaria que o leitor levasse desta leitura?
Não sei bem como responder a isso. Basta-me que o leitor mergulhe na minha história e, enquanto dura a leitura, viva dentro dela. No fundo, nós, narradores, limitamo-nos a escapar à realidade, refugiando-nos noutra inventada — e gostamos de arrastar o leitor connosco durante algumas horas.





