Roberto Bolaño retratado en París.

Todos os caminhos vão dar a Roberto Bolaño

Autor de culto consagrado pela crítica e os leitores que marcou as letras latino-americanas contemporâneas, Roberto Bolaño criou um universo de poetas e marginais que se disseminou como um vírus na ficção longa e curta, passando pela poesia e a não-ficção. Uma escrita irreverente e combativa, que recusa submeter-se e sacode a apatia, para (re)descobrir em Contos Completos.

«Doença e testes

E já é hora de voltar àquele elevador enorme, o maior elevador que vi na minha vida, um elevador onde um pastor poderia ter metido um reduzido rebanho de ovelhas e um ganadeiro duas vacas loucas e um doente duas macas vazias, e onde eu me debatia, literalmente, entre a possibilidade de pedir àquela doutora de curta estatura, quase uma boneca japonesa, que fizesse amor comigo ou que pelo menos tentássemos, e a possibilidade certa de desatar a chorar ali mesmo, como Alice no País das Maravilhas, e inundar o elevador não de sangue, como em Shining de Kubrick, mas de lágrimas. Porém, os bons modos, que nunca são supérfluos e que poucas vezes estorvam, são em ocasiões como esta um estorvo, e ao fim de pouco tempo a doutora japonesa e eu estávamos fechados num cubículo, com uma janela da qual se via a parte de trás do hospital, a realizar uns testes estranhíssimos que me pareceram exactamente iguais aos testes que aparecem nas páginas de passatempos de qualquer jornal dominical. Naturalmente, esmerei‑me muito para os fazer bem, como se quisesse demonstrar‑lhe que o meu médico estava enganado, vão esforço, pois embora realizasse os testes de forma impecável a pequena japonesa permanecia impassível, sem me oferecer o mais ínfimo sorriso de alento. De vez em quando, enquanto ela preparava um novo teste, falávamos. Perguntei‑lhe pelas hipóteses de sucesso de um transplante de fígado. Elevadas hipóteses, disse ela. Quanto por cento?, disse eu. Sessenta pol cento, disse ela. Porra, disse eu, é muito pouco. Na política é maiolia absoluta, disse ela. Um dos testes, talvez o mais simples, impressionou‑me bastante. Consistia em manter durante alguns segundos as mãos esticadas de forma vertical, com os dedos para cima, quero eu dizer, mostrando‑lhe as palmas e contemplando eu as costas. Perguntei‑lhe o que raio significava aquele exame. A sua resposta foi que, num ponto mais avançado da minha doença, seria incapaz de manter os dedos nessa posição. Estes, inevitavelmente, dobrar‑se‑iam para ela. Julgo que terei dito: meu Deus. Talvez me tenha rido. A verdade é que, desde aí, faço esse exame todos os dias, esteja onde estiver. Ponho as mãos à frente dos olhos, com as costas viradas para mim, e observo durante alguns segundos os nós dos dedos, as unhas, as rugas que se formam em cada falange. No dia em que os dedos não consigam manter‑se firmes, não sei bem o que farei, embora saiba o que não farei. Mallarmé escreveu que um lance de dados nunca abolirá o acaso. No entanto, é necessário atirar os dados todos os dias, tal como é necessário realizar o exame dos dedos levantados todos os dias.»

Os dados estão lançados em «Literatura + Doença = Doença», in Contos Completos, de Roberto Bolaño

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