No bairro do Zambujal, a privacidade era uma superstição. Ninguém acreditava nela, mas toda a gente fingia respeitá-la.
As notícias corriam de janela em janela com uma eficiência que, aplicada aos correios, teria feito do nosso Portugal uma potência mundial. Bastava alguém aparecer com um frigorífico novo para, ao fim da tarde, já se saber quanto tinha custado, onde fora comprado e quantas prestações estavam por pagar. Havia até quem soubesse coisas que o próprio dono do frigorífico desconhecia.
Mas existia uma diferença fundamental entre aquilo que toda a gente sabia e aquilo que era permitido dizer. A primeira categoria era praticamente infinita. A segunda exigia uma delicadeza diplomática que faria corar os embaixadores das Nações Unidas.
Todos sabiam que o filho da Lila estava preso, depois de uma rusga feita antes do jantar, por volta da hora do Preço Certo. Que o marido da Isabel tinha arranjado uma segunda família no Algarve, para onde ia a trabalho no verão. Que ninguém precisava de perguntar ao Manel Cigano como tinha comprado o Mercedes-Benz. Toda a gente sabia. Que havia gente a viver acima das possibilidades e outra abaixo da dignidade. Os segredos eram do domínio público, mas ninguém cometia a indelicadeza de os mencionar aos respectivos proprietários. Cruzávamo-nos nas escadas e perguntávamos pela saúde. Pelo tempo. Pela porcaria da luz, que falhava de vez em quando desde que o neto da Ti Cecília fizera uma puxada. Os vizinhos do lote 7 começaram por criticá-lo pelas costas e acabaram a perguntar-lhe como se fazia.
Era uma coreografia de silêncios ensaiada ao longo de décadas. A mulher cujo filho estava preso sabia que nós sabíamos. Nós sabíamos que ela sabia que nós sabíamos. E todos fazíamos o extraordinário esforço de não saber absolutamente nada.
Durante muito tempo, achei que aquilo era hipocrisia. Afinal, de que servia conhecermos tão bem a vida uns dos outros se, quando nos encontrávamos, tínhamos de fingir que não conhecíamos coisa nenhuma?
Só mais tarde percebi que havia uma certa generosidade naquela mentira colectiva. Uma mãe não precisava de cumprir a pena do filho todas as manhãs, quando saía para ir beber a bica no Café da Emília. Uma mulher traída não precisava que lhe recordassem a humilhação à porta da mercearia. Havia pessoas que já carregavam vergonha suficiente para ainda terem de a explicar à velha do segundo direito, que diziam que era uma aluada e que até os putos queria fornicar.
Fingir que não sabíamos era, por vezes, a única maneira de lhes permitir continuar a viver como se nada tivesse acontecido. Não era uma forma de apagar a verdade. Era uma maneira de não lhes esfregar a verdade nas trombas.
O problema é que este código de boas maneiras tinha uma falha de fabrico.
A mesma discrição que protegia os inocentes também protegia os canalhas. E não ajudava o facto de as pessoas serem de uma complexidade bastante inconveniente.
Um homem podia ser um terror dentro de casa e o primeiro a ajudar uma vizinha a carregar as compras. Podia emprestar dinheiro a quem precisava e passar a vida a pedir dinheiro a quem não devia. Podia ter um cadastro que envergonharia um ministro e ser a pessoa mais estimada do prédio.
A generosidade não lhe apagava as maldades. Mas as maldades também não faziam desaparecer, por artes mágicas, os gestos generosos.
Era uma maçada. Teria sido muito mais fácil se os maus viessem com um sinal na testa, os bons andassem de branco e as pessoas se comportassem de acordo com a reputação que mereciam. Infelizmente, no Zambujal, até os sacanas davam bons-dias.
E nós respondíamos. Não necessariamente porque gostássemos deles. Nem porque lhes perdoássemos alguma coisa. Respondíamos porque amanhã teríamos de voltar a cruzar-nos nas escadas, depois de amanhã na mercearia e, com alguma sorte, durante os trinta anos seguintes.
É fácil defender grandes princípios. Difícil é deixar de ir ao único café do bairro que tem gelados da Olá só porque lá vai um sacana.
A vida em comunidade obriga-nos a uma negociação permanente entre aquilo que sabemos, aquilo que sentimos e aquilo que estamos dispostos a dizer. Por vezes, o silêncio é um gesto de ternura. Outras vezes, é pura cobardia. E há ocasiões em que começamos por proteger alguém e acabamos, sem dar por isso, a proteger aquilo que essa pessoa fez.
Talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar. Não somos necessariamente melhores pessoas por conhecermos melhor os outros. Somos apenas pessoas com mais informação para gerir e, muitas vezes, menos coragem para decidir o que fazer com ela.
Foi também deste mundo de reputações, lealdades e contradições que nasceu A Balada do Bairro. De gente que não cabia inteiramente na sua melhor qualidade nem no seu pior defeito. De pessoas que podiam gostar umas das outras, detestar-se e continuar a viver no mesmo prédio, porque a vida raramente nos concede o luxo de escolher todos aqueles que fazem parte dela.
Ainda hoje acho que o «bom dia» é uma das expressões mais sofisticadas da língua portuguesa. Duas palavras que tanto podem significar «gosto muito de si», «não tenho nada contra si», «sei perfeitamente o que fez» ou «põe-te no caralho antes que te enfeite as beiças». E o mais extraordinário é que toda a gente parece compreender a diferença.
Quanto a mim, continuo a respeitar o código de boas maneiras que aprendi no bairro. Quando alguém me pergunta pela vida dos outros, digo sempre que não sei de nada.
O que acontece a seguir, depende de quem pergunta.




