A questão do como e do porquê de uma nação que se orgulha da sua cultura e civilidade permitir a catástrofe do nazismo assombra-nos até hoje, porque tememos a sua repetição. Não se trata de uma mera questão histórica. «Aconteceu, por isso pode acontecer de novo», avisou o sobrevivente do Holocausto, Primo Levi. Apesar das muitas páginas escritas acerca da ascensão e domínio do Terceiro Reich, vale a pena reanalisar a questão a nível granular. Como é que a Alemanha, em poucos anos, passou de uma das democracias mais liberais do mundo a uma ditadura genocida? Quais as escolhas feitas individualmente pelos alemães que o permitiram? Uma das peças cruciais neste quebra-cabeças do século xx é a cidade de Weimar.
Weimar está localizada no coração da Alemanha. Num mapa do país está ligeiramente descentrada, a cerca de meio caminho entre Hamburgo e Munique. É uma cidade singular, consciente da história e da tradição, possuindo ambas em abundância. Nas suas ruas empedradas erguem-se casas com estruturas em madeira, elegantes vivendas, igrejas, palácios e árvores de copas verde-escuras. Situada no vale do rio Ilm, os seus frondosos parques são tão vastos que um escritor do século xix brincou dizendo que «Weimar é na realidade um parque que tem uma cidade». Weimar atraiu muitos residentes famosos. Johann Wolfgang von Goethe, largamente visto como o poeta nacional alemão, aí viveu e trabalhou com o seu amigo e também escritor Friedrich Schiller. Johann Sebastian Bach residiu em Weimar durante anos, tal como outro compositor, Franz Liszt, e o filósofo Friedrich Nietzsche. O lugar de Weimar na história cultural alemã excede em muito a sua dimensão física.
«Weimar é a Alemanha em miniatura», disse uma vez o antigo presidente alemão Roman Herzog, «uma cidade em que não só a cultura e o pensamento se sentiam em casa, mas também o filisteísmo e a barbárie.» Weimar há muito que tem sido o farol cultural da Alemanha, mas, durante algum tempo, foi também o seu coração das trevas. Representa tudo o que o país ganhou, perdeu, sofreu e infligiu. E nunca isso foi tão verdade como durante o tumultuoso período entre as duas guerras mundiais, de 1919 a 1939.
A cidade que fora outrora o lar de alguns dos maiores espíritos da Europa parecia o lugar ideal para a Alemanha se reinventar após o horror e a humilhação da Primeira Guerra Mundial. Foi aí que, em 1919, uma nova constituição inaugurou uma nova Alemanha, carimbando o nome da cidade na primeira tentativa de uma completa democracia no país: a República de Weimar. Poucas pessoas fora da Alemanha conseguiriam apontar a cidade de Weimar num mapa. No entanto, o seu nome evoca ideias de nobres experiências e ideais caídos.
-Katja Hoyer, in Weimar





