João Guimarães Rosa passou por Hamburgo, Bogotá e Paris antes de regressar a Minas Gerais, no Brasil. Durante 10 dias, percorreu 220 quilómetros e anotou histórias que, mais tarde, iriam fazer parte do Grande Sertão: Veredas. Riobaldo, protagonista-narrador, discorre pelas suas memórias a um interlocutor desconhecido. Riobaldo é um antigo jagunço e, logo aí, começa a viagem pelas “veredas” do “grande Sertão”; pela sua linguagem; pelas suas histórias.
Guimarães Rosa é apontado como um reinventor da língua portuguesa. Em conversa com Günter Lorenz, o autor terá dito que usa cada palavra «como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original» e que «como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas». No entanto, esta reinvenção da língua é, muitas vezes, apontada como uma dificuldade de legibilidade, sendo famosa a expressão de Ferreira Gullar, «uma história de cangaço contada para os linguistas».
Clara Rowland, investigadora e autora do prefácio da edição comemorativa dos 70 anos, aponta esta dificuldade linguística como um dos “lugares-comuns” da obra. Contrapõe-lhe uma carta de Clarice Lispector, datada de dezembro de 1956, onde se pode ler «A linguagem dele, tão perfeita também de intonação, é directamente entendida pela linguagem íntima da gente.» Lispector parece ter compreendido a linguagem que Rosa partilha com as crianças e com os narradores sertanejos, «onde todos são igualmente estrangeiros e aprendizes».
Esta abordagem linguística revolucionária concretiza-se através do diabo (cuja presença se faz sentir ao longo do romance) e de todos os seus nomes: o Faca-Fria; o Tal; o Arrenegado; o Cão; o Indivíduo; o Galhardo; o Pé-de-Pato; o Sujo; o Homem; o Coxo; o Temba; o Azarape; o Mafarro; o Pé-Preto; o Canho; o Duba-Dubá; o Rapaz; o Tristonho; O-que-nunca-se-ri; o Azinhavre; o Sem-Gracejos; o Fancho-Bode; o Rincha-Mãe; o Sangue-d’Outro; o Muitos-Beiços. Ele povoa a narrativa tal como a narrativa se povoa em si; como dela se confunde, se transforma no seu próprio labirinto.
A edição comemorativa dos 70 anos de «Grande Sertão: Veredas» recupera a capa da 2ª edição do livro, publicada pela Livraria José Olympio Editora. Após uma 1ª edição que o desagradara, João Guimarães Rosa junta-se ao artista plástico Poty Lazzarotto para concretizar uma ilustração tão única quanto o livro, onde nenhum detalhe é deixado ao acaso, que conta, também, com mapas do sertão. Estão, ainda, presentes os manuscritos originais do autor, com as suas correções e hesitações. Esta edição representa o «Grande Sertão: Veredas» como ele fora imaginado por João Guimarães Rosa.




