Peni Lane: crónica de Daniel Jonas

Por vezes, quando as condições estão favoráveis, podemos avistar um fenómeno raro: uma PENI. A Pessoa Estacionada Não Identificada é um cone em forma humana e está por um veículo que ainda se não vê, o qual é esperado a todo o momento a preencher em definitivo a vaga confiada de momento ao seu precursor carnal.

Enquanto não chega a legítima viatura, ocupa tristonha, a alma, o alcatrão vazio, penhor e promitente de que o carro existe, simplesmente os afazeres atrasaram-no. Nesse sentido, é um tipo de carro, e, apesar de lembrar gente, não é mais pessoa do que de jogo de mesa a peça berrante que se pôs num tabuleiro de xadrez a substituir um peão que se perdeu. Pugna este híbrido por que
nenhuma outra viatura ali aparque, sob pena de um confronto épico com o meco humano, que esbracejará bravamente, esgrimindo o direito a que ali se reserva. De nada nos adianta protestar. Pretender a nulidade dessa figura jurídica é lesar com agravado dolo a ordenação do nosso mosaico social.

Luta perdida à partida, sabemo-nos condenados à afronta da resignação. Se pessoas automobilizadas são por rotina truculentas e não perdem uma discussão de trânsito por nada deste mundo, que diremos de pessoas que respondem pelo pronome auto? São, entre todas, as mais trucurrápidas na truculência, portadoras de uma cepa milenar a que se juntou a habilidade de espinossauro em ganhar rápida volumetria, donas de espírito animoso, capazes de enfunarem temivelmente, de modo a pré-preencherem o lugar desejado enquanto afastam com ar sisudo e foles de fogo a concorrência do mundo cenomaniano, dissuadindo a competição abespinhada dos cretinos do cretáceo que não percebem pratos simples como almas ao alcatrão.

«Se pessoas automobilizadas são por rotina truculentas e não perdem uma discussão de trânsito por nada deste mundo, que diremos de pessoas que respondem pelo pronome auto?»

Os condutores com pretensões a estacionar verificam o problema com que se deparam. A luta inglória pela evolução está à sua frente. Não já a desagradável motocicleta que aparece diferida no exacto momento em que mais alimentávamos a nossa ilusão de lugar, mas esta górgona irredutível em ceder a sua posição, que nos promete um pregão de impropérios eivado a escamas de sardinhas e fanecas. O mundo prudente sabe da sua vocação de transformer. E quantos não são os homens de pouca fé que teimaram insistir na arguição pelo espaço aparente! Com efeito, poucos especímenes restam vivos deste confronto com as potestades do lugar. Que tais criaturas aparentem vulnerabilidades, que exibam cinturas finas, enganando no seu tailleur não reflector e na falta de tablier, é apenas para ocultar a verdade demencial da sua irascibilidade, pois, pervígeis, são radares feéricos que importa não desassossegar, peixes-balões potenciais que nos condenarão a uma noite estragada.

São, de resto, almas que sempre chegaram providencialmente cedo. Lembramo-nos delas nas conferências, depositando na aurora os seus apetrechos (casaco, mochila, guarda-chuva) nas três cadeiras adjacentes que reservaram desde o início dos tempos para as suas colegas mais preferidas. Assim juntinhas Deus as quis, e o orador fica mais inspirado. Foram também elas que com uma semana de antecedência se mudaram para um iglô para garantirem a compra dos bilhetes para o concerto do ano. Foram elas que chegaram à loja do cidadão mal a alvorada fez soar a sua rutilante trombeta, elas que esgotaram as senhas de presença para o dia inteiro, ainda a madrugada pachorrenta se presumia no adro das pessoas normais.

Pessoas prematuras e prudentes, são primas direitas e por direito da deusa do amanhecer, Eos, a que tem como função abrir as portas para a carruagem de Hélio. Antecedendo Cronos, fazem outras coisas: na sua arrecadação conservam, engarrafado para as intempéries com nomes próprios, sob a forma de uma palete de garrafas azuis, um mar morto estagnando sob a avalanche de mansos rolos higiénicos há muito subtraídos aos escaparates comerciais, quando, ainda massajava Selene o pano encantado pela remela de ouro, já elas passavam a perna a incautos clientes que acharam poder chegar ao supermercado a qualquer hora.

Passando por dóceis, com suas asas postas à cintura, estas quimeras fantásticas não antecipam apenas o carro de Hélio. São fabulosas criaturas de um tempo muito à frente do nosso. Só quando Hélio, o incandescente deus, se vê preso num imprevisto, e detida na lomba do firmamento a biga dourada puxada a quatro cavalos afogueados, é que logramos avistá-las. Visões raras de um oriente extremo, pertencem ao mais cedo que houve, a uma era anterior ao destino, utentes de um pretérito divino. Criaturas de antes da criação, são filhas (se filhas foram e não só mães!) dum tempo em que nem sequer foi uma vez.

[Texto escrito segundo o acordo ortográfico de 1945.]

 

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