«Este livro reúne o que fascina desde criança: mapas, criaturas e magia»

O território português é habitado por criaturas fantásticas, presentes há muitas gerações no imaginário popular, perpetuadas pela tradição oral e pelo registo de vários autores. Fascinado por este universo, Samuel F. Pimenta dedicou-se a identificar e contar as histórias de mais de 70 seres mágicos na nossa cultura. Helena Soares ilustra as vivências e os rituais destas criaturas nos seus habitats, espalhadas por todo o continente e ilhas. O Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal, na coleção Lillput, é a obra que faltava em qualquer biblioteca.

 

Como surgiu este livro?

SFP: Para a escrita de alguns dos meus romances, fiz muita pesquisa sobre a cultura popular portuguesa e a tradição oral, sobre o nosso folclore, tema que acabei por continuar a estudar por interesse pessoal. Ao longo dos anos, fui-me deparando com o imaginário mítico de Portugal e as criaturas que o povoam, sendo que algumas delas já me fascinavam desde a infância. Em 2022, cruzei-me com um mapa da Escócia que identificava a localização das várias criaturas daquele território. Como também adoro mapas e os atlas foram dos primeiros livros que comecei a ler, tive a ideia de criar este livro, reunindo algumas das coisas que mais me fascinavam em criança e que muito contribuíram para começar a ler e a escrever: mapas, criaturas e magia. Parece-me um livro ideal para a introdução à leitura.

 

Qual foi o processo de trabalho e as fontes utilizadas para a pesquisa e seleção das criaturas?

SFP: Parte da pesquisa já estava feita, como expliquei anteriormente. Mas as criaturas que tinha não eram suficientes para o livro que queria criar: o objetivo era não apenas reunir criaturas mitológicas ou da tradição oral, mas também da tradição literária. Além disso, queria mostrar os lugares a que estavam associadas no mapa e contar as suas histórias, ainda que de forma curta, dado o formato do livro. Também queria incluir algumas criaturas muito próximas da realidade, cujas histórias me fascinam por serem verdadeiramente mágicas, como é o caso do Cervo Rei ou da Ursa da Praia da Ursa. Quanto às fontes, se hoje conhecemos grande parte destes seres, devemo-lo a autores como Fernanda Frazão e Gabriela Morais, José Leite de Vasconcelos, Paulo Pereira, Consiglieri Pedroso, Teófilo Braga, entre outros, mas também aos arquivos municipais e à tradição oral.

 

Estas criaturas estão associadas a lendas, tradições, maldições, feitiços, sortilégios. No imaginário popular, ao longo dos tempos, qual tem sido o seu papel?

SFP: O papel destas criaturas tem sido variado e com mudanças ao longo do tempo. Algumas delas, com caráter sagrado, outras surgem como aviso, outras como forma de proteção. Diria que, acima de tudo, o papel destas criaturas tem sido o de nos manter ligados à nossa identidade mais ancestral e à capacidade de continuarmos a imaginar.

 

Existe uma relação entre as criaturas associadas a cada região e as caraterísticas do território. Temos criaturas dos rios, dos mares, das montanhas, da planície…. Podes falar-nos disso?

SFP: A maioria das criaturas que integram o livro são indissociáveis do território, do lugar a que pertencem. Na verdade, algumas delas acabam por ser fragmentos de religiões pré-cristãs, em que o território era sagrado. E as criaturas que hoje conhecemos (algumas delas, não todas) eram verdadeiras divindades, porque representavam o rio, que era sagrado, ou a montanha, que era sagrada, ou a fonte, que era sagrada também. Também por isso fiz questão de que este livro fosse um atlas, porque me parecia importante associar as criaturas aos lugares, possibilitando as crianças e as famílias de os visitar futuramente.

 

Muitas destas criaturas estão associadas aos medos, presentes na infância e não só. Mas será que podem também ajudar a ultrapassar esses mesmos medos?

SFP: Sim, sem dúvida! Muitas destas criaturas acompanham as crianças em ritos de passagem ou são avisos para lugares perigosos, como os poços ou a beira-mar, em que é necessária atenção, preparação e conhecimento para se poder visitar em segurança. Por isso, se à primeira vista elas estão associadas ao medo, se as olharmos com mais atenção elas estão, na verdade, a dizer: «pára, prepara-te, adquire conhecimento e depois, sim, podes passar por mim».

 

Como foi o processo de trabalho e quais as fontes de inspiração para dar vida a criaturas que perduram há tanto tempo nas crenças populares?

HS: O processo começou muito a partir do texto e da investigação do Samuel. Para além da descrição e da história associada a cada criatura, ele partilhou também algumas indicações sobre a forma como estas são tradicionalmente representadas, bem como aspetos específicos relacionados com a sua fisionomia, vestuário ou personalidade. Ou seja, para a maioria das criaturas já existia previamente um conjunto de características que deveriam estar presentes na ilustração e que eu tive em conta na construção das imagens. Ainda assim, um dos aspetos fundamentais deste livro é precisamente o facto de nos instigar a imaginar — e eu tive também esse espaço e liberdade para pensar as criaturas e criar a minha própria interpretação de cada uma. O ponto de partida passou então por idealizar estas figuras e perceber a sua relação com o território onde habitam. Interessava-me que as criaturas não surgissem isoladas, mas integradas na paisagem, e por vezes como se fizessem parte dela. Isso ajudou-me a dar-lhes uma presença mais orgânica e a pensar cada dupla página como um panorama ilustrado, onde diferentes cenas coexistem num mesmo espaço, criando uma leitura fluída e imersiva.
Paralelamente, houve um trabalho contínuo de pesquisa e recolha de referências. Os seres mitológicos têm sido representados ao longo dos séculos em diferentes contextos e culturas, por isso revisitei bestiários, enciclopédias e livros dedicados a criaturas específicas, como sereias, dragões ou fadas, e consultei também atlas e mapas ilustrados, sobretudo numa perspetiva de organização visual. Sendo um livro centrado no território português, este processo levou-me ainda a estar atenta a formas de representação como o artesanato popular e a azulejaria portuguesa, referências que, mesmo de forma subtil, acredito que influenciaram a construção das composições e das figuras.

 

Quais as criaturas que gostaste mais de ilustrar e quais ofereceram mais resistência ou desafio?

HS: Mais do que uma criatura específica, diria que o verdadeiro desafio esteve na construção dos enquadramentos de cada dupla página. Procurei sempre criar composições abrangentes, quase cenográficas, onde as criaturas não surgem de forma isolada, mas inseridas num mesmo ambiente ou paisagem. Na maioria das duplas páginas, aparecem três ou quatro criaturas e, muitas vezes, foi desafiante conjugar tudo: as diferentes escalas, a descrição textual de cada uma, a ação que queria representar e o tipo de ambiente que cada uma pedia. Além disso, sendo criaturas associadas ao território português, tentei sempre incluir pequenos apontamentos, quase como easter eggs, que remetessem para as regiões retratadas. O maior desafio acabou por ser precisamente esse: equilibrar todos estes elementos dentro do espaço limitado da página, sem perder a fluidez da leitura.
Em relação às criaturas em si, não consigo destacar nenhuma como particularmente difícil, porque as imagens foram sempre pensadas como um todo. Ainda assim, pela sua dimensão ou nível de detalhe, houve algumas que exigiram mais tempo e trabalho, como o Papão, o Lobisomem, o Dragão de Vouzela, os Gigantes e a Sereia da Praia da Rocha. Quanto às que mais gostei de ilustrar, é complicado escolher entre mais de 70 criaturas e uma vez que todo o processo foi muito envolvente. Mas posso destacar a Ofiussa, o Adamastor, os Olharapos, o Papão, as Sereias e, claro, os Gambozinos que vão aparecendo ao longo de todo o livro.

 

Que criaturas povoaram a vossa infância?

SFP: Sempre vivi imerso na minha imaginação, alimentada pelo contacto com a natureza, pelos livros e pelos filmes, mas também pelas histórias que me iam contando, da tradição oral. Dessa forma, foram muitas as criaturas a povoar a minha infância, desde sereias, dragões, fadas, lobisomens, duendes, papões, cobras voadoras e mouros encantados.

HS: Os livros e os filmes sempre estiveram muito presentes na minha infância e ao longo do meu crescimento, por isso fui conhecendo várias criaturas através desse universo: sereias, fadas, duendes, dragões, unicórnios, lobisomens, entre muitas outras. Mas também me lembro de histórias que me contavam, ligadas à tradição oral, a lendas, mitos ou até a pequenas superstições do dia a dia. Lembro-me de imaginar como seria o João Pestana, por exemplo, ou o Papão e o Homem do Saco, e de me perguntar se os gambozinos existiriam mesmo.

 

Como pretendem apresentar este livro nas escolas e que dinâmicas propõem aos professores para trabalhar o livro com os alunos?

SFP: Uma boa forma de apresentar este livro é tentar convocar criaturas locais para a conversa, estejam ou não no livro. Os professores poderão fazer o mesmo com os alunos, sugerindo-lhes que pesquisem sobre o imaginário mitológico das terras ou cidades onde vivem e que identifiquem criaturas que também poderiam integrar o Atlas. Podem até fazer os seus próprios mapas!

HS: Enquanto ilustradora, acredito que este livro permite várias abordagens, mas penso que o objetivo principal deve ser sempre o de instigar a imaginação e a criatividade, sair do plano real e sonhar. Este livro acaba por ser um “híbrido” de formatos, abrindo várias possibilidades de trabalho em contexto escolar. Enquanto atlas, pode ser interessante propor aos alunos que façam uma recolha de lendas, mitos e histórias da sua região, reunindo as criaturas aí presentes e criando os seus próprios mapas, por exemplo.
Por outro lado, enquanto coletânea de criaturas mágicas, pode ser estimulante convidar os alunos a escolher aquelas que mais os intrigaram ou despertaram curiosidade e desenvolver a sua própria interpretação visual, seja através do desenho, da pintura, da colagem ou de outras formas de expressão. No fundo, a ideia é que o livro funcione como ponto de partida para conhecer mais sobre o nosso imaginário popular coletivo e criar, imaginar e reinterpretar.

Partilhar:
Outros artigos: