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Carla Lourenço: «Quanto mais estudava, mais queria estudar. E mais fascinada ficava com o que a natureza esconde mesmo debaixo do nosso nariz»

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Desde os dois anos que Carla Lourenço é fascinada pelas poças que se formam nas rochas durante a maré baixa, e foi isso que a fez estudar biologia marinha. Cresceu no Sudoeste Alentejano, mas foi no Algarve que descobriu uma espécie de mexilhão que se pensava extinta da nossa costa. A meio do doutoramento, que a levou a investigar como as alterações climáticas afetam a vida marinha, apaixonou-se por comunicar ciência, transferindo todo o seu conhecimento para este livro. Com ilustrações de Sara Paz, Isto Não É vai mostrar que na Natureza nem tudo o que parece é e que as aparências enganam.

 

Quem és tu, podes fazer uma breve apresentação tua? O que te levou a ser bióloga marinha?
O meu nome é Carla Lourenço, sou bióloga marinha, amante do oceano, apaixonada por florestas, recolectora-amadora de cogumelos, viciada em chocolate e tenho a sorte de ter a Pipoca na minha vida – uma cadela de 12 anos, que encanta toda a gente no meu bairro. Desde que me conheço que tenho uma profunda ligação à natureza. Em pequena, ora corria pelos pinhais que escondiam pequenos charcos e ia procurar girinos, ora investigava por onde andavam as joaninhas no quintal do meu avô, ora me encontravam na praia, de cabeça para baixo, a espreitar os animais que viviam nas poças que se formavam com a maré baixa. Aos 10 anos juntei-me ao agrupamento de Escuteiros da minha vila. Essa decisão veio moldar grande parte da pessoa que sou hoje. Uma das leis pelas quais os Escuteiros se regem é a de proteger as plantas e os animais. Levo-a tão a sério que desde o dia que fiz a promessa de Escuteira que tento nunca falhar (pelo menos) nesta lei.
Por ter crescido entre as margens do rio Mira e as ondas do oceano Atlântico, no litoral alentejano, podia jurar que me corre água salgada nas veias, em vez de sangue, mas as feridas que fiz nas pernas ao longo dos anos, a subir e descer rochas, mostraram-me que não. Estudar biologia marinha foi a decisão mais acertada que tomei em adolescente – imaginem ter ido para química ou engenharia ambiental. Hoje não existiria o Isto Não É. Não foi, no entanto, uma decisão óbvia ou algo que sempre quis ser, porque eu não sabia o que queria ser. Também gostava de teatro, e pensei seguir essa carreira. Sabia, no entanto, que o que mais me fascinava eram os animais e o mar. Os pontos ligaram-se depois – e a biologia marinha trouxe-me muito mais do que animais marinhos.

 

O que te levou a escrever este livro?
Há alguns anos, encontrei perdida numa página da internet um poster com desenhos de animais que mostravam que os seus nomes nem sempre correspondiam ao esperado. Os nomes eram uma coisa; os animais outra. Como se os animais nos estivessem a mentir deliberadamente. (Mas não mentem! Nós humanos é que temos esta necessidade de organizar e catalogar o mundo à nossa volta.) Achei tão divertido e educativo que decidi partir numa expedição (de leitura) científica. Falei com outros biólogos marinhos, botânicos, entomólogos, ornitólogos para saber mais sobre essas espécies que não são o que parecem. Vasculhei repositórios de artigos científicos, desenhei muitas árvores filogenéticas. Passei muitas horas, algumas já com sono, a compilar tudo o que lia. Quanto mais estudava, mais queria estudar. E mais fascinada ficava com o que a natureza esconde mesmo debaixo do nosso nariz. Aprendi imenso. Compilei esses 15 segredos que podemos encontrar no livro, mas existem mais… Não os quis guardar para mim e, um dia, ganhei coragem e falei com a equipa da Penguinkids e assim nasceu o Isto Não É.

 

Que livro é este e o que os mais pequenos podem esperar dele?
É um livro de histórias, de aventuras, e até pode servir – em parte – como guia de identificação de alguns animais que nos rodeiam. Nele, descobrimos que as corujas não são pássaros, que os bichos-de-conta não são insetos, e até percebemos que afinal as árvores não existem – filogeneticamente falando. De capítulo em capítulo, o livro promete desvendar muitos segredos sobre a natureza que nos rodeia, que vão servir para os mais pequenos relembrarem aos mais graúdos a importância de olharmos para baixo com mais frequência e nos maravilharmos com o mundo que existe aos nossos pés.

«Deixem as crianças molhar os pés, subir às árvores, cheirar as flores. Conhecer a natureza num ecrã é cómodo, mas não traz nem metade da diversão. E é possível aprender a brincar.»

Qual o segredo mais surpreendente da natureza que te enganou?
Do livro? De todos os capítulos, o que mais me surpreendeu foi provavelmente o bicho-de-conta. Acho que nunca tinha olhado para o bicho, com a devida atenção. Assumi, sem ligar ou contar o número de patas, que seria um inseto, mas não podia estar mais enganada. Afinal de contas, é primo das lagostas!

 

Numa época em que os miúdos passam muito tempo nos ecrãs, como é que se pode inverter isso e começarem a gostar/explorar a natureza?
O primeiro passo é mesmo IR. SaIR de casa, quer esteja sol ou chuva. Todos os ambientes são dados à exploração e à descoberta. Deixem os miúdos sujarem a roupa, as mãos. Deixem-nos molhar os pés, subir às árvores, cheirar as flores. Conhecer a natureza num ecrã é cómodo, mas não traz nem metade da diversão. E é possível aprender a brincar. Em boa verdade, até os nossos pátios, as nossas varandas, os nossos terraços, podem ser lugares de questionamento científico que nos ligam à natureza – se não conseguirmos sair de casa por alguma razão. Todos os dias, quase sem excepção, sou visitada por duas rolas-turcas. Sem falarem comigo, já me deixaram com muitas perguntas na cabeça. Chamam-se Julinha e Jules. E se é verdade que a tecnologia pode ser um entrave, não é menos verdade que pode ser uma aliada na exploração da natureza. Existem imensas aplicações que nos permitem registar as espécies que encontramos. Os seres mais incríveis não estão nos jogos, nem são feitos de pixéis. São feitos de células – tal como nós.

De que maneira aproveitas as viagens para o teu trabalho?
Deixa-me inverter as palavras. Diria antes que aproveito o meu trabalho para conhecer o mundo natural sempre que posso. Enquanto escrevo estas linhas, estou sentada no pátio de uma cabana de madeira, na impressionante floresta de Tawau Hills, no Bornéu, Malásia. Estão 32º C, que só se arrefecem com a ventoinha que sopra na minha direção, e que tenta fazer-se ouvir mais alto do que a sinfonia de cigarras que estão escondidas nas árvores que me rodeiam. É uma floresta com 130 milhões de anos. Sinto-me como uma criança numa loja de doces – exceto pelo facto de o açúcar fazer mal aos dentes e aqui não correr esse risco. Tudo me fascina. Quando o entusiasmo assenta, tento deixar tudo no papel, e contar histórias que possam levar o leitor a apaixonar-se pela natureza.
Sempre que ponho um pé fora de casa, procuro pelos elementos naturais, porque é também neles que me sinto em casa. Cada descoberta dá lugar a uma pergunta – que precisa SEMPRE de resposta, ou não fosse eu uma cientista.

 

Como poderá este livro ser trabalhado nas escolas por professores e alunos?
Este livro é um convite à exploração dentro e fora da sala de aula, para qualquer idade. Pode ser uma ferramenta muito útil para estudar as relações entre espécies, as ameaças aos vários ecossistemas e saber até o que devemos fazer se encontrarmos animais selvagens que necessitam de cuidados médicos. As oportunidades para cruzar o ensino das ciências naturais com outras disciplinas estão espalhadas ao longo do livro, se assim o entendermos. No capítulo dos dragões podemos explorar Geografia. No capítulo das abelhas podemos fazer dos padrões e das cores um exercício de artes visuais. No capítulo das medusas podemos voltar atrás no tempo e estudar o período das Grandes Navegações, procurando os paralelismos entre as embarcações e os sifonóforos que ganharam o nome de caravela-portuguesa. Estas páginas são, assim, o ponto de partida para muitas explorações e (espero eu!) muitas questões.

 

Nas livrarias a 25 de maio

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