Partidas, despedidas e regressos – a matéria da vida de Martim.
Conhecemo-lo ainda rapaz – em A noite da espera, primeiro volume da trilogia «O lugar mais sombrio» -, a chegar a Brasília, a cidade de todas as novidades, num momento em que recomeçar parece possível, apesar da dor da separação da mãe. E vemo-lo, cinco anos depois, mais maduro, a abandonar a capital, e todos os sonhos e desilusões que ela abarcou, de regresso a São Paulo.
Vai em fuga, do cerco pesado da ditadura, da saudade da mãe, da relação opressiva com o pai, da ligação a Dinah, a mulher que o ensinou a amar. Impele-o o objetivo de estudar Arquitetura, e começar de novo. Numa república de estudantes, cria novos laços, volta a experimentar o amor e vai forjando uma identidade à sombra de um país que ameaça esboroar-se a qualquer momento. Martim voltará a partir, para Paris, num ciclo que parece o de um eterno exílio.
Quantas vezes é possível recomeçar? Quantas partidas são necessárias para silenciar os fantasmas do passado?
Os elogios da crítica:
«”Como viver num tempo trágico e numa terra trágica?” Essa dúvida, que anima os dias de hoje, talvez seja o nosso ponto de fuga, para onde convergem as inquietações dos tempos atuais.»
Rita Palmeira, Quatro cinco um (sobre Pontos de fuga)
«A atmosfera de erotismo, política e cultura aproxima o livro de Hatoum do clássico A educação sentimental, de Gustave Flaubert. […] A trilogia de Hatoum poderá ser a grande obra de reflexão — com fôlego narrativo e atraente ao público — que se esperava na literatura brasileira contemporânea. Não se trata mais de denunciar violências da ditadura militar, mas sim de refletir sobre o que restou dos tempos sombrios e o que não se consegue sepultar de vez.»
Enio Vieira, Estado de Minas (sobre A noite da espera)
«Hatoum imprime urgência à narrativa de tempos conturbados, equilibrando ocorrências familiares e acontecimentos históricos de tal forma que estes espelham aquelas e vice-versa. […] O amadurecimento de Martim se dá no vácuo do lar implodido e à sombra da brutalidade ditatorial, no útero da metastática República, que ainda hoje insiste em devorar seus cidadãos. A noite da espera aponta para a continuidade do “inverno do nosso descontentamento”.»
André de Leones, O Estado de S. Paulo
«Um belo romance. […] O escritor Julio Cortázar já chamara a_atenção para o facto de que ler um livro é sempre botar o dedo no gatilho, multiplicando a sua força explosiva. O gesto de resistir caminha de modo paralelo àquele de narrar — e a esse chamado a narrativa de Hatoum responde com um sonoro “sim”.»
Stefania Chiarelli, O Globo
«Como um Raduan Nassar do Norte, Hatoum reflete sobre a opressão familiar, a imigração libanesa e a memória por meio de uma prosa límpida e ritmada, que corre caudalosa e triste, como um rio amazónico. […] A noite da espera não é apenas mais um romance sobre a ditadura. É um romance de formação. Uma história sobre a passagem da ingenuidade à vida adulta, da juventude ao desencanto.»
Ruan de Sousa Gabriel, Época