madalena sá fernandes

Madalena Sá Fernandes: “Continua a interessar-me o território entre a autobiografia e a literatura.”

O sótão é um lugar cheio de simbolismos e cheio de possibilidades, que permite passarmos da infância ao sonho, do passado ao medo, do ruído dos dias ao silêncio de um refúgio. O que te atraiu, na ideia de sótão, para lhe dedicares um livro inteiro?

O Sótão interessou-me por muitas razões e de muitas maneiras. É um espaço da casa, mas parece estar fora da casa, pertence ao quotidiano, mas conserva qualquer coisa de arcaico e de interdito. Fica no alto, mas não é ainda céu, está dentro, mas já aproxima-se do exterior, é abrigo, mas também pode ser ameaça; é infância, mas também loucura; é arquivo, mas um arquivo desordenado, feito de restos, de poeira, de objectos sem utilidade aparente, de fotografias por arrumar, de histórias que ninguém contou. No sótão cabem a ternura e o medo, a intimidade e a clausura, a memória e a invenção, os objectos guardados e a gravidade dos segredos que persistem.

O sótão da minha infância era um território separado do resto do mundo. Recordo-o como um país íntimo.

Também me atraiu a verticalidade do sótão. Subir para um sótão é atravessar um limiar. No livro, a subida passa pelas pernas, pelos degraus que rangem, pelo cuidado de não acordar o pai, pelos calcanhares levantados, pelo conhecimento físico da casa. A memória, nesse sentido é muscular, táctil e acústica. O corpo sabe coisas antes de a consciência as formular. Há casas que ficam inscritas nas pernas, nos ombros, na maneira como baixamos a cabeça para não bater no tecto. Interessava-me escrever essa memória da forma como o corpo aprendeu a atravessar o espaço.

O sótão é também o lugar dos objectos que perderam a sua função, mas não perderam a sua força. Gavetas estreitas, conchas, brinquedos partidos, fotografias, roupas antigas, coisas que já ninguém usa mas que continuam a exercer uma autoridade silenciosa. Procurei espelhar essa sobrevivência dos objectos. E um objecto guardado num sótão não está vivo, mas também não está morto. Permanece num estado intermédio, como uma relíquia sem culto. O sótão, por isso, é uma arqueologia doméstica. Guarda versões anteriores de nós. Guarda aquilo que a casa não conseguiu deitar fora.

Neste livro, o sótão é também o lugar da figura paterna, e é um espaço que surge após uma separação, o que desloca o sótão do campo encantatório para uma zona mais complexa. O sótão deixa de ser apenas o refúgio da criança e torna-se também o lugar de uma solidão adulta. Este gesto vai ser reproduzido após a separação da narradora, que precisa de um espaço para escrever e recompor alguma ideia de intimidade. Esta repetição não é inocente. Há uma genealogia emocional. O sótão volta como forma, como herança, e como destino arquitectónico.

O sótão é separação, mas não apenas no sentido biográfico. É separação enquanto estrutura. Separa o presente do passado, a criança da adulta, a filha da mãe, a mãe da mulher, o corpo da casa, o que se diz do que se cala. É um espaço entre dois níveis. E isso pareceu-me literariamente fértil. A literatura também vive desse intervalo. Escrevemos sempre entre duas coisas: entre o que aconteceu e o que conseguimos dizer; entre a memória e a linguagem; entre o vivido e a forma, entre o segredo e a revelação.

O sótão é o lugar onde os segredos vivem porque é o lugar onde se põe aquilo que não se sabe ainda enfrentar. Não é por acaso que tantas casas têm um sótão real ou imaginário. Precisamos de um lugar para alojar o que não cabe na sala, no quarto, na conversa familiar, na versão oficial da vida. O sótão é esse lugar escuro e distante onde as coisas continuam a existir mesmo quando deixamos de olhar para elas. O livro não procura necessariamente desvelar todos os segredos. Interessa-me mais aproximar-me deles, perceber a sua arquitectura.

Dedicar um livro inteiro ao sótão foi uma maneira de seguir todas estas camadas.

No fundo, o que me atraiu foi perceber que o sótão era uma estrutura, uma forma de pensar e uma topografia da memória.

Habituamo-nos a pensar no sótão como o lugar mais recôndito de uma casa, e todos temos a imagem de um sótão, verdadeiro ou ficcionado. Neste novo livro, trabalhaste sobre a ideia de espaço físico, de memória e de procura de um lugar?

Sim, trabalhei essas três dimensões. O espaço físico, a memória e a procura de um lugar contaminam-se. O sótão é uma divisão concreta, com traves, pó, calor, frio, madeira, ruídos, sombras e degraus. Mas é também uma zona mental, uma câmara da memória, um lugar onde o passado não regressa de forma ordenada, mas através de objectos, sons, cheiros, temperaturas, gestos. Interessava-me contrariar a ideia de que a casa é apenas cenário.. Uma casa molda e impõe silêncios, autoriza movimentos, cria hábitos, produz medos. No sótão, essa acção da casa torna-se ainda mais evidente porque o espaço é inclinado, irregular, menos dócil. Temos de negociar com ele. O corpo não entra ali de forma soberana; adapta-se. Baixa a cabeça, mede a distância às traves, aprende os ruídos, distingue o ranger habitual do ruído que parece estranho. O sótão obriga a uma atenção quase animal. A memória, por sua vez, aparece no livro como acumulação. Não é uma sucessão limpa de acontecimentos. É mais próxima dos objectos que encontramos nos sótãos e cujo significado só se revela parcialmente. A memória às vezes apenas ilumina um canto. E o sótão é o lugar ideal para essa lógica fragmentária, porque nele nada está verdadeiramente arquivado de modo racional. As coisas repousam, esperam e sobrevivem. O passado está arrumado de forma provisória.

Quanto à procura de um lugar, nasceu de uma necessidade muito concreta: depois de uma separação, é preciso encontrar uma casa. Mas essa pergunta prática transforma-se imediatamente numa pergunta existencial. Onde posso estar? Onde posso cuidar das minhas filhas? Onde posso ser adulta sem deixar de ser filha? Onde posso estar só sem que a solidão me destrua? Onde posso escrever? Onde posso recomeçar sem fingir que recomeçar é simples?

Por isso, o sótão é simultaneamente refúgio e instabilidade. Dá-me abrigo, mas não me oferece uma pacificação absoluta. É casa, mas uma casa inclinada. É promessa, mas também ficção. É intimidade, mas também clausura. No livro, interessa-me essa tensão. A casa como lugar de protecção e de ameaça, como lugar de pertença e de estranheza.

 

Em que medida é Sótão parecido com os teus livros anteriores, Leme e Deriva, ou em que medida é diferente?

Creio que  há uma continuidade na presença da primeira pessoa, na relação com a memória, na atenção ao corpo, à infância, à solidão, à violência e à maternidade. Continua a interessar-me o território entre a autobiografia e a literatura, entre aquilo que foi vivido e aquilo que a escrita transforma.

No Leme, havia uma urgência de atravessar uma experiência de medo, desamparo e violência, e de encontrar uma direcção possível. O título convocava a ideia de comando, de rota, de tentativa de recuperar algum governo da vida. Era um livro mais frontal na sua relação com o trauma, mais directamente ligado à necessidade de nomear o perigo e de reconstruir uma memória.

O Deriva, por outro lado, aceitava mais a dispersão. Era um álbum de recortes, um caderno de movimentos, de observações, de humor, de pequenas perplexidades da iidade adulta e do mundo contemporâneo, com uma respiração mais aberta, mais deambulante, mais ligada à crónica e ao quotidiano.

O Sótão é diferente porque concentra a matéria num lugar. Não parte tanto de uma sucessão de episódios, nem de uma deriva pelo mundo, mas de uma imagem central, quase obsessiva. O sótão torna-se personagem, método e arquitectura. Tem relação com o Leme no lado autobiográfico e de regresso à infância. Mas é um livro mais vertical, mais recolhido, mais claustrofóbico talvez. Em vez de avançar pelo mar, sobe-se. Em vez de procurar uma rota, entra-se numa divisão. Em vez de deambular, escuta-se.

Tudo regressa ao Sótão: a infância, o pai, a separação, as filhas, o medo, os objectos, os segredos, a escrita.

Diria que há uma continuidade subterrânea entre os três títulos. Leme, Deriva e Sótão são três formas de pensar o movimento. No primeiro, o movimento é direcção; no segundo, é deslocação sem controlo; no terceiro, é subida, baloiço, oscilação entre passado e futuro. O sótão parece imóvel, mas está cheio de movimento: a criança balouça, a memória sobe, a casa range, o corpo adapta-se.

Talvez a maior diferença esteja no modo como Sótão trabalha o silêncio. No Leme, havia uma necessidade de dizer. No Deriva, uma necessidade de observar e pensar em voz alta. No Sótão, há uma necessidade de ouvir. Escutar a casa, os objectos, o pai, as filhas, o corpo, o medo, os segredos. É um livro menos interessado em resolver e mais interessado em permanecer junto daquilo que ainda não se deixa resolver.

Este caminho autobiográfico tem mudado a tua escrita?

Tem sido o movimento mais natural da minha escrita. Certos episódios autobiográficos impõem-se e tenho uma urgência de escrever sobre eles. Embora a autobiografia, para mim, não seja uma autorização para a exposição total. É uma matéria delicada, perigosa, que exige forma, distância e responsabilidade. O que me interessa não é confessar por confessar. Interessa-me perceber como uma experiência se transforma em linguagem.

Escrever episódios menos solares obriga-me a desconfiar da facilidade emocional. A dor, por si só, não faz literatura. O trauma, por si só, não basta. É preciso encontrar a frase justa, o ritmo justo, a imagem que não traia a experiência nem a explore. E isso mudou a minha escrita porque me tornou mais atenta ao que não deve ser dito, ao que deve permanecer em sombra, ao que pode ser sugerido sem ser explicado. A omissão tornou-se tão importante como a revelação.

Creio que a escrita mudou ainda noutro aspecto: tornou-se mais interessada na forma como o corpo guarda aquilo que a memória não organiza. No Sótão, por exemplo, dou uma atenção ao corpo que se curva, que se adapta, que ouve ruídos, que teme, que cuida, que sobe escadas, que bate no tecto.. A casa molda o corpo e a experiência molda a linguagem.

Escrever autobiograficamente ensinou-me que a literatura não cura de modo simples. O que ela pode fazer é dar forma ao informe. Pode criar uma arquitectura onde antes havia desordem. Pode transformar o medo em escuta, a memória em movimento.

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