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«A realidade é como magia, mas real»

, na categoria: Entrevistas, Nuvem de Letras

Um mergulho na história da água através do tempo e do espaço, com a transmissão de conhecimento científico através de um texto em rima repleto de factos e curiosidades. As jornalistas Diana Matias e Miriam Alves escreveram, e Filipa Beleza criou as ilustrações cheias de cor e expressividade, desde a formação do planeta até aos nossos dias. Falámos com estas três autoras premiadas, cujo trabalho tem merecido destaque e louvor.

 

Como surgiu a ideia de comporem um texto infantil em conjunto?

Diana: Eu e a Miriam trabalhamos juntas há mais de dez anos. Eu diria que parece uma vida inteira. Cruzámo-nos numa reportagem, quase por acaso, e a sintonia foi imediata. Somos muito diferentes e complementares e isso é um enorme desafio, mas é também uma oportunidade de fazer mais, melhor e diferente. A Miriam é um motor que muitas vezes me empurra para fora da zona de conforto e a ideia de escrevermos um livro juntas foi mais uma dessas ocasiões. Ao início achei que estava a brincar, dois minutos depois já tinha “comprado” a ideia! Adoramos, ambas, escrever e fazer chegar o conhecimento o mais longe possível.

Miriam: Trabalhamos juntas na equipa de Grande Reportagem e nas rubricas de ciência que também fazemos na SIC, como o Admirável Mundo Novo. E é sempre muito bom porque ambas adoramos o que fazemos e olhamos para as coisas com olhos muito diferentes. A Diana tem o condão de me puxar para a Terra quando estou a chegar a Marte e de me permitir mergulhar sem perder o pé. Um dia descobri que a Diana tem também um jeito especial para rimas. Cada um com os seus talentos: eu faço cara de peixe como ninguém, ela faz rimas com qualquer assunto.

 

E como surgiu a ideia específica para este livro?

Diana: A Miriam é uma metralhadora de ideias. Esta chegou-me num café rápido, para arrancar uma manhã de trabalho, e fez todo o sentido! Um livro de não-ficção, para crianças. Somos ambas mães e sempre estimulámos muito a leitura nos miúdos. Acho que eles tiveram a sua quota de responsabilidade nisto.

Miriam: Um dia ouvi uma bióloga dizer uma coisa que nunca me tinha ocorrido: a água que existe no planeta é a mesma desde o início dos tempos. Achei este facto impressionante. Bebemos a mesma água que os dinossauros. Mergulhamos na mesma água que os primeiros seres marinhos. Uns dias depois acordei com esta ideia. Contar a história da água desde que apareceu no planeta (incluindo como surgiu no planeta). E a história do que temos feito com ela.

 

Porquê a opção pelo texto em rima?

Diana: Quando os meus filhos eram pequeninos, as viagens de carro para a escola eram feitas a brincar com rimas. Eles diziam a palavra mais difícil para rimar que lhes ocorresse, e eu tinha de fazer uma rima com sentido (pelo menos algum!). Comecei a perceber que, no dia seguinte, e por vezes vários dias depois, ainda se lembravam de algumas rimas. A rima entra no ouvido, cativa como uma canção e fica na memória. É uma excelente fórmula para os aproximar da leitura.

Miriam: Eu fui arrastada para a rima pelo talento supracitado da Diana e também pela curiosidade. Nunca tinha escrito em rima, pareceu-me um desafio interessante. E foi. Foi das coisas mais divertidas que já fizemos juntas.

 

Filipa, esta é a tua primeira aventura na ilustração para crianças? Conta-nos como foi!

Filipa: Não, já tinha ilustrado o livro infantil Boa Noite, Olá! (Tcharan, 2023), e é sempre desafiante embarcar em novos projetos, independentemente da idade do público-alvo. Ao ilustrar, o meu objetivo é criar imagens cativantes, dinâmicas e com um toque de humor, com potencial para despertar o interesse não só das crianças como dos pais — no final de contas, a leitura partilhada tem sempre um encanto especial.

 

Sendo jornalistas, consideram os textos de não-ficção, informativos, essenciais para crianças?

Diana: Sem dúvida. Os textos de não-ficção mostram que no mundo real cabem muitas histórias fantásticas e empolgantes. São textos que rasgam horizontes, alimentam a curiosidade e promovem a reflexão. E ajudam a associar o livro a uma fonte de conhecimento credível e confiável, mas que não deixa, por isso, de ser divertida.

Miriam: Considero os livros, em geral, essenciais para crianças. Sendo jornalista, gosto de escrever sobre factos, gosto de informar, de aprofundar, de mostrar ângulos eventualmente menos evidentes que nos permitam pensar sobre os assuntos de uma forma mais completa, mais rica. E também me parece, muitas vezes, que a realidade supera a ficção. Basta pensar que a água é a mesma desde o início dos tempos, por mais incrível que isto pareça. Adaptando uma citação conhecida: a realidade é como magia, mas real.

 

Enquanto jornalistas, como veem a relação dos mais novos com a imprensa? Qual a importância de promover a literacia para a informação?

Diana: As gerações mais novas estão a crescer num tempo em que a imediatez se impõe e isso constitui uma ameaça à sua adesão a trabalhos jornalísticos mais apurados e musculados. Mas continuo a acreditar que é possível aproximá-los de uma informação cuidada, que não tem de ser aborrecida. É muito importante trabalhar ferramentas que lhes permitam identificar fontes credíveis no meio da imensidão de informação a que são expostos diariamente. É um exercício que deve ser estimulado desde muito cedo: saber procurar informação e desenvolver um pensamento crítico sobre o que veem, o que leem, o que ouvem. Questionar, sempre.

Miriam: A importância é gigantesca. Se não soubermos distinguir factos e desinformação, informação e afirmações, tudo fica em perigo: desde a nossa saúde e segurança à própria democracia. Preocupa-me muito a ideia de os miúdos crescerem a receber “informação” e condicionamento de todos os ecrãs e mais alguns, sem filtros nem curadoria. Educar nesse sentido tem de ser uma prioridade.

 

No final, o livro fala na curiosidade de “saber o que aí vem”. Falar do futuro, hoje, pode causar apreensão devido a tantas incertezas (guerra, inteligência artificial, crise climática, escassez de água). Que mensagem deixam para pais e educadores nesta matéria?

Diana: As incertezas estão aí e podem mesmo ser assustadoras. No caso da água, podemos ajudar os miúdos a não ficar só pelo diagnóstico: o que é que posso fazer para ajudar a lidar com o problema? Poupar água, todos os dias, na minha rotina? Espalhar a palavra em casa, na escola, na comunidade? Promover a mudança de hábitos em quem se cruza comigo? Sou uma gota no oceano… Mas muitas gotas juntas fazem o oceano.

Miriam: Acho que devemos tentar manter-nos otimistas — aliás, entrevistei recentemente um neurobiólogo que explica que o otimismo protege a saúde — e passar esse otimismo às crianças que nos rodeiam. Não um otimismo pateta, mas algo que nos permita não desanimar, não nos sentirmos impotentes ou anestesiados perante as incertezas e os perigos no horizonte. Que nos permita pensar no que podemos fazer, cada um de nós. Como podemos contribuir para melhorar o mundo? Juntarmo-nos a uma associação com que nos identifiquemos no nosso bairro? Estarmos mais atentos aos nossos amigos, aos nossos pais, à nossa família? Protegermos a nossa inteligência e largarmos os ecrãs? Fecharmos a torneira enquanto lavamos os dentes? O futuro é, também, o que fizermos dele.

Filipa: A água é um tema incontornável — desde o ponto de vista didático, mas também enquanto recurso natural fundamental — e, como tal, é também incontornável que todos continuemos, sempre, a aprender e a falar sobre a mesma.

 

Pensam levar este livro às escolas? Em que moldes e dinâmicas gostariam que fosse trabalhado pelos alunos?

Diana: Seria uma experiência enriquecedora, sem dúvida. Acho que o livro pode chegar em forma de desafio: incentivar as crianças a escreverem as suas próprias rimas para esta gota, a criarem outras situações pelas quais tenha passado ou a imaginarem o que ainda poderá acontecer, depois de tudo o que já viveu e testemunhou. Olhando para o passado ou projetando o futuro, há sempre forma de sensibilizar os miúdos para uma utilização responsável da água, enquanto interiorizam a ideia central do livro: a água é sempre a mesma desde o início dos tempos, e é isso que a torna tão especial.

Miriam: É uma emoção ver um livro que escrevemos ser lido por uma criança e adoraria ver este livro a ser trabalhado em escolas. Imagino que possa ser interessante pensar nele para peças de teatro. Acho que tem personagens para uma turma inteira. Quem quererá fazer de trilobite? Já estou a imaginar cenários desenhados pela Filipa Beleza! E outros criados pelos próprios alunos.

Filipa: Creio que é um livro que pode funcionar bem nas escolas. Além do tema, que nunca deixa de ser relevante, parece-me, tanto pelo formato em que o texto está escrito, com recurso à rima, como pela variedade das ilustrações, que tem potencial para captar a atenção das turmas e criar momentos divertidos nas salas de aula, talvez inspirando os próprios estudantes a criarem eles mesmos as suas pequenas histórias ilustradas sobre a água!

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