Entre a mãe e a ilha há uma escrita da separação

A relação com a mãe é o centro instável a partir do qual Jamaica Kincaid escreve e reescreve a própria vida. “A minha mãe morreu no momento em que nasci e, por isso, em toda a minha vida, nunca houve nada entre mim e a eternidade”, lê-se na abertura de Autobiografia da Minha Mãe, o terceiro livro de Kincaid publicado pela Alfaguara, e mais um com tradução de Alda Rodrigues.  

A relação filha-mãe não surge como uma memória apaziguada. É antes um campo de tensão que nunca se resolve. Essa insistência tem um ponto de partida concreto: Jamaica Kincaid nasceu em 1949, em St. John’snas Caraíbas, então ainda sob domínio britânico, e deram-lha o nome de Elaine Potter Richardson. Cresceu numa família numerosa, nessa ilha pequena onde a ordem colonial era parte do quotidiano e a figura da mãe ocupava um lugar central, simultaneamente protector e disciplinador. Aos 17 anos, sai de Antigua para os Estados Unidos, primeiro como au pair, por necessidade económica e ruptura com o seu mundo mais íntimo. A mudança de nome para Jamaica Kincaid dá-se nessa altura, um corte não apenas biográfico, mas também literário.  

Nos anos seguintes, publicou na The New Yorker, onde se afirmou como uma das vozes mais singulares da sua geração, em textos que cruzavam memória, ficção e ensaio. 

É a partir desse percurso que se podem ler Annie JohnLucy e Autobiografia da Minha Mãe, três variações da pergunta sobre origem: o que significa uma separação como aquela que Kincaid fez, e o que resiste a ser deixado para trás. 

EmAnnie John, a infância está longe de ser um espaço de inocência. A grande marda desse período é a intensidade. Ali, a ligação entre mãe e filha tem qualquer coisa de absolutoaté deixar de ter, e momento em que se quebra não é progressivo, mas simplesmente abrupto. A mãe transforma-se em figura de autoridade, e a filha começa a medir-se contra ela. Não há aprendizagem suave da autonomia, mas uma experiência de perda. Como Kincaid dizia na entrevista ao Ípsilon, “crescer é um gesto violento, porque implica rejeitar aquilo que nos formou”. Essa violência atravessa o livro, está na doença de Annie, no seu isolamento, na forma como o corpo regista aquilo que a linguagem ainda não consegue organizar. 

Lucy retoma esse gesto e desloca-o para fora da ilha. A partida de St. John’s poderia sugerir libertação, mas Kincaid desmonta essa expectativa. Lucy vive num outro país, com outras regras, outra língua, outro clima, e, no entanto, continua presa a uma relação que tenta negar. A mãe reaparece nas cartas que não chegam a ser enviadas, nas frases que regressam, na recusa sistemática de repetir o que foi. “A distância não resolve nada”, dizia Kincaid nessa mesma conversa. “Só torna mais claro o que já estava lá.” O exílio, aqui, não é saída, mas intensificação. 

Em  Autobiografia da minha Mãe, a relação sofre um desvio mais radical. A mãe não é presença, mas ausência inaugural. Vemos a narradora nascer de uma perda, e é essa perda que vai organizar a sua forma de estar no mundo. Não há vínculo a romper, nem proximidade a recuperar; há um vazio que não se preenche. A escrita torna-se mais dura, mais seca, menos disponível para qualquer forma de identificação.  

Lidos em conjunto, estes três livros não constroem uma narrativa de formação. O que subjaz é um arquivo de insistências. A mãe, a ilha, a partida, tudo regressa, mas nunca da mesma maneira, e a biografia infiltra-se. Está no corpo das personagens, na repetição dos gestos, na forma como a linguagem se mantém próxima do corte inicial que a desencadeou. Sair, escrever e mesmo assim nunca conseguir fechar completamente nenhuma dessas acções. 

Em Jamaica Kincaid não um percurso que se esclarece com o tempo. O que resiste é uma origem que permanece opaca, a exigir uma reescrita continua. Por isso, em Kincaid, viver e escrever são actos inseparáveis e não é porque a literatura explique a vida; é porque é a partir dela que a vida pode continuar a ser interrogada. 

Isabel Lucas [Texto escrito segundo o acordo ortográfico de 1945.]

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