Mr. Electrico
A acreditar em Ray Bradbury, numa entrevista à The Paris Review no final dos anos 1970, retomada e só publicada em 2010 [The Art of Fiction n.º 203], o evento transformador da sua vida foi o encontro com Mr. Electrico, aos doze anos. O episódio parece retirado de uma das histórias do autor. O jovem Ray Bradbury assiste na primeira fila a um número de circo no qual um homem, Mr. Electrico, sentado numa cadeira electrificada recebe uma potente descarga de energia, levanta-se e com a espada carregada de electricidade toca nos ombros do rapaz e na ponta do seu nariz, exclamando-lhe: «Vive para sempre!» Como que imbuído de um dom místico, Bradbury voltou para casa e começou a escrever. Nunca mais parou. Foi a sua forma de alcançar a imortalidade. No prefácio de uma das edições de O Homem Ilustrado, um dos seus livros mais famosos, insistiria: «Escrevo, escrevo, escrevo, para não estar morto.» .
A escrita e a leitura como obsessão
A força prepotente desta missão tornaria Ray Bradbury um dos autores mais imaginativos e prolíferos do século XX. Nada escapou ao seu olhar. A sua curiosidade insaciável produziu cerca de 27 livros e 600 contos que cruzam diversos géneros literários, não contando com a poesia, as peças de teatro e radiofónicas ou as adaptações para cinema (a mais famosa destas a de Moby Dick, para o filme de John Huston, de 1953). Em Zen ou a Arte da Escrita, de 1990, um volume de ensaios ainda hoje lido por aspirantes a escritores, celebrou a «alegria da escrita» e o estado de «embriaguez criativa», defendendo que só com a quantidade se podia alcançar a qualidade. O mesmo em relação à leitura, aconselhando-nos a ler todo e qualquer tipo de literatura para o qual o nosso prazer pessoal nos dirija. Nas suas obras, promoveu uma «ficção de ideias» cujo motor é a interrogação «E se…». E se as viagens no tempo fossem possíveis e uma empresa privada organizasse safáris ao passado? Este é o termo operativo de «Um Som de Trovão», história incluída em «As Maçãs Douradas do Sol», que termina com uma borboleta do Mesozóico morta acidentalmente, provocando a trágica eleição de um ditador no futuro. É à imaginação de Bradbury que devemos o famoso «efeito borboleta».
O prazer de queimar
A contaminação de géneros e estilos na sua obra e inclusive no mesmo livro fazem de Ray Bradbury um autor inclassificável. Alternando acções trágicas e cenas cómicas, o sublime e o quotidiano ou mesmo o grotesco, a sua escrita está impregnada de um profundo pathos, um sentimento de humanidade ao qual nenhum leitor consegue ficar indiferente. A imediata empatia pelo destino de cada um dos astronautas do conto «Caleidoscópio» de «O Homem Ilustrado», à deriva no espaço infinito depois da explosão da sua nave, é disso exemplo. É esse o segredo da permanência das suas obras. Enquanto o objecto-livro permanecer um veículo e símbolo da cultura humana e o «prazer de queimar» do bombeiro Montag nos provocar um horror quase sacrílego, Fahrenheit 451 continuará a ser um clássico lido por várias gerações. É indiferente que o futuro nele descrito possa ficar datado. Bradbury, ao contrário de Dick ou de Asimov, nunca se interessou pela verosimilhança das suas visões tecnológicas. Nesse sentido, é errado confinar uma obra-prima da literatura como Crónicas Marcianas no espartilho da ficção científica. No livro, Marte serve apenas de cenário para mostrar a essência profunda do humano: os seus sonhos de infinito, a sua solidão, a sua natureza destrutiva, os seus medos e terrores, mas também a sua capacidade de emocionar-se. O mesmo acontece em romances como A Morte É um Acto Solitário ou Um Cemitério para Lunáticos, que têm um registo próximo do mistério e do horror. Nostálgicos da época de ouro do cinema, com uma atmosfera que recorda os policiais de Dashiell Hammett e de monstros e pesadelos dignos de Stephen King, são, sobretudo, criações poéticas intemporais. Por estas razões, Ray Bradbury, que acabou por morrer em 2012, vive para sempre.
Diogo Madre Deus, editor [Texto escrito segundo o acordo ortográfico de 1945.]




