«Uma rapariga é um estado de espírito. Sofia buscava as sensações como um girassol seguindo o astro-rei. Para educar uma rapariga, seriam talvez necessárias várias mães: uma para a calçar, outra para a vestir; uma para a alimentar, outra para lhe apontar o bem e o mal; uma para lhe enxugar as lágrimas, outra para lhe afiar as unhas; e uma sétima para a preparar para a guerra.»
De Ana Cláudia Santos pode dizer-se que é a mais clássica, a mais indisciplinada das escritoras portuguesas contemporâneas. Na linhagem de Lavores de Ana, este é um livro de histórias que dão voz a personagens em confronto consigo próprias, quase sempre com vidas em desajuste perante as memórias que guardam ou os desejos que atiçam. Histórias que traçam uma fronteira indefinível entre inocência e violência, em que a linguagem é parte do corpo habitado pelas personagens, e em que o corpo é voz de um tempo, de uma geografia, de inquietações públicas e privadas.
Sobre A morsa – Contos de inocência e de violência:
«Há aqui uma abordagem estranha, um lugar pouco canónico, uma deambulação incerta, um enredo em sfumato, uma ironia magoada. […] Se A morsa tem como subtítulo Contos de inocência e de violência, a violência raramente é física, e a inocência manifesta-se enquanto perversidade.»
Pedro Mexia, Expresso
«As personagens deste livro são raparigas muito problemáticas: só obrigadas é que fazem o que querem; não aceitam nada que lhes queiram dar; mas também não sabem o que conquistar; vivem divididas entre o que se quer delas e o que elas querem. Algumas têm um caroço de individualidade tão denso que pode ser explosivo, mas nunca chega a explodir.»
Luísa Costa Gomes
Sobre Lavores de Ana:
«O leitor [fica] no meio, não de um, mas de vários trânsitos que acompanha como quem assiste a um filme: deixando-se levar. Só assim capta a sensualidade da narração, o fio erótico, antimoralista, deste fluxo de histórias […]. Um pequeno romance onde o jogo entre o desenho feliz e o fundo bordado a cor escura traça as linhas rigorosas de um belo livro da ficção portuguesa contemporânea.»
Gustavo Rubim, Público
«Um daqueles livros de estreia que não enganam: o anúncio de uma escritora inteira.»
Bruno Vieira Amaral
«Lavores de Ana começa numa quase cena de comédia, com a protagonista fechada numa casa que não é sua, num país que não é seu, a pedir ajuda aos vizinhos, na língua a que se entrega como quem se entrega a um amor. Um grande começo, num livro feito de regressos: à cidade de Nápoles, às tensões entre a casa e o mundo e entre a vida do corpo e a vida dos prédios, e às línguas que sentimos como estranhas e serão um dia aquilo a que chamamos casa.»
Clara Rowland
«Nápoles. Ana, mulher portuguesa, estende a roupa na varanda, quando, por acidente, as portadas de dentro se fecham deixando-a presa ao ar livre. A vizinhança, toda solidariedade e alguma perícia, acode. Desde então, Ana passa a ser Annarè, ‘a que ficou fechada na varanda, a portuguesa, a forasteira’. Este começo seria desperdiçado se, entre Ana e Annarè, entre a varanda e a casa, entre mais do que uma língua, não decorresse todo o percurso da educação sentimental que faz a singularidade deste pequeno livro.»
Abel Barros Baptista