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Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal: uma memória descritiva do projeto editorial

, na categoria: Nuvem de Letras

Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal é um projeto editorial que reúne 71 criaturas do imaginário popular português, organizadas pelas diferentes regiões do país — Norte, Centro, Oeste e Vale do Tejo, Grande Lisboa, Península de Setúbal, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira. O livro resulta de um trabalho de recolha e sistematização de criaturas identificadas através da tradição oral e de fontes literárias portuguesas. Concebido como um objeto de preservação da memória, procura valorizar um património cultural coletivo, traduzindo-o para uma linguagem editorial contemporânea através do design e da ilustração, contribuindo para manter vivo um imaginário que faz parte da identidade cultural portuguesa.

 

Imaginário e lugar

A organização do livro assenta na pertença geográfica das criaturas. Em vez de serem agrupadas por categorias ou tipologias, são apresentadas nos territórios aos quais pertencem, reforçando a relação entre imaginário, património e lugar. A estrutura alterna entre mapas regionais e panoramas ilustrados, estabelecendo um ritmo de leitura que conduz o leitor pelas diferentes regiões de Portugal: enquanto os mapas contextualizam cada território, os panoramas revelam o universo das criaturas que lhe estão associadas.
Os mapas recorrem a uma linguagem de carácter infográfico, localizando as criaturas e sintetizando cada região através de elementos geográficos, arquitetónicos e naturais. Estas duplas-páginas funcionam como momentos de orientação, estabelecendo uma ponte entre o território real e o universo imaginado que se segue.

Os panoramas ilustrados constituem o núcleo do livro, centrando-se na representação das criaturas e respetivos textos descritivos. Cada dupla-página reúne vários seres do imaginário popular associados à mesma região. As ilustrações integram as criaturas em paisagens inspiradas no território que lhes serve de referência, incorporando elementos do património local, pequenos detalhes e referências visuais que enriquecem a composição. O carácter cenográfico destas composições reforça a dimensão narrativa e convida o leitor a percorrer visualmente cada cenário. Concebida como um panorama contínuo, cada dupla-página equilibra a riqueza da ilustração com a clareza da informação, convidando o leitor a uma leitura imersiva, marcada pela observação e pela descoberta.

 

Equilíbrio e continuidade

O projeto editorial foi desenvolvido para potenciar a dimensão exploratória e contemplativa do livro. A densidade e o elevado nível de detalhe das ilustrações, aliados a uma paleta cromática vibrante, são equilibrados por um sistema tipográfico sóbrio e elegante, que garante legibilidade e estabelece uma hierarquia clara entre títulos, descrições e, por vezes, “curiosidades”. A inserção do texto e a ilustração foram concebidas em paralelo, permitindo que ambos se integrassem de forma orgânica na composição. Assim, cada bloco de texto foi desenhado como parte integrante da própria imagem, contribuindo para um equilíbrio harmonioso entre informação e ilustração e preservando a continuidade visual ao longo das páginas. O formato de 228×290 mm foi escolhido para valorizar a escala das ilustrações, proporcionando espaço para acolher múltiplas criaturas e os respetivos textos em cada dupla-página, sem comprometer a fluidez da leitura.

 

Obra evocativa de coleção e consulta

Por fim, a capa foi concebida como uma síntese do conteúdo do livro. Reúne várias criaturas do imaginário popular português em torno de uma moldura central que destaca o título, antecipando a diversidade do interior e funcionando como uma porta de entrada para este universo mágico. Mais do que identificar o livro, procura afirmar desde o primeiro contacto a sua identidade enquanto objeto editorial.
Esta intenção prolonga-se na própria materialidade do objeto: o formato, a encadernação em capa dura e o acabamento com verniz localizado no título evocam os atlas antigos, os bestiários e livros de arquivo, reforçando o seu carácter de coleção, consulta e permanência.

O livro afirma-se, assim, como um objeto híbrido: simultaneamente atlas, arquivo ilustrado de criaturas do imaginário popular português e livro de exploração visual. Através da articulação entre design editorial, ilustração e património, o Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal procura preservar a memória coletiva e contribuir para manter vivo um universo que faz parte da nossa identidade.

Helena Soares, designer e ilustradora

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