O Gaspar podia bem ser o Charly. Falámos com o autor da série Aventuras Improváveis, que se inspirou na sua própria fuga de casa para escrever este relato na voz de um rapaz de 10 anos que decide fugir de casa, não sem antes delinear um plano bem detalhado. Recheado de humor, este Diário de Uma Fuga Mal Planeada é o primeiro volume de uma série que a Nuvem de Letras começa agora a publicar.
Como se tornaste autor de livros infantojuvenis?
Eu já escrevia livros para adultos. Ter filhos fez-me querer escrever livros que eles pudessem ler. E, à medida que foram crescendo, também fui mudando o tipo de projeto em que trabalhava para a literatura infantil.
Foi maravilhoso poder interagir com eles ao longo de todo o projeto, desde a conceção da ideia inicial até à fase do manuscrito, e ver o que pensavam: as reviravoltas, as personagens, os temas explorados.
Qual foi a inspiração para estas Aventuras Improváveis?
A ideia era escrever um livro de aventuras realista. Ou um livro de aventuras sem uma aventura a sério (não uma aventura extraordinária e incrível, mas uma do dia-a-dia). Com uma personagem que se questiona muito, como uma espécie de Woody Allen jovem e meio tonto, mas que precisa de explorar novos territórios.
Cada volume é uma forma de libertação ou um caminho para amadurecer, para atingir um marco: fugir de casa e conquistar a independência, amar e conhecer outras pessoas, comprometer-se e participar no projeto coletivo de uma manifestação. E a ideia de que a aventura reside precisamente em responder a todas as questões que o Gaspar (e todos os outros) se colocam ao realizar o projeto que lhes é importante.
O livro tem muito humor, incluindo para os adultos, em parte por causa da forma como estes são retratados pelo narrador. Quiseste pisar o olho aos pais e professores?
O humor parece-me essencial, primeiro para deixar os leitores à vontade, para lhes dizer que, se também não são os mais rebeldes, sejam bem-vindos ao clube. E segundo, é uma abordagem do mundo que quis incorporar nestes livros, na perspetiva sobre tudo, principalmente pelo facto de ser um diário. O humor é, portanto, uma lente constante através da qual o Gaspar vê o mundo.
Qual tem sido a receção a esta série por parte dos leitores? E por parte dos pais e professores, tens recebido também reações?
A série foi muito bem recebida, tanto pelas crianças como pelos pais. Obviamente, não se trata de um guia de como fugir de casa, mas sim de mostrar que as crianças e os pais podem falar sobre o desejo de independência. Por isso, foi importante para os pais do Gaspar ajudá-lo, apoiá-lo e tentar compreendê-lo.
Por fim, quais são os ingredientes que não podem falar nas histórias para os mais novos?
Não sei quais são os ingredientes necessários ou essenciais. Mas percebo que tudo aquilo que inspira o desejo de explorar o mundo de uma forma diferente depois de terminar a leitura, de comunicar com os outros, tudo aquilo que inspira o desejo de escrever ou abordar as coisas sob uma nova perspetiva, é necessário. Isto é especialmente verdade na literatura infantil (pelo menos, é o que me importa): a história ou a personagem devem ser impulsionadas por uma energia positiva, entusiasta e curiosa.




