Com a publicação em Portugal de Entre Elas, a premiada obra de estreia de Pauline Spira, uma novela gráfica juvenil e vibrante sobre adolescência e amizade, falámos com a autora belga, nascida em Bruxelas e a viver em Gante. A releitura do seu blogue de adolescência, do início dos anos 2000, inspirou esta história sobre as vivências de duas amigas durante um curso de verão, com experiências e encontros que irão pôr à prova a sua amizade.
Podes falar-nos um pouco sobre ti e sobre o teu percurso?
Nasci em Bruxelas e passei toda a minha infância com a cabeça enfiada nos livros. Desenhei praticamente desde sempre: na adolescência, adorava desenhar cavalos e retratos, francamente terríveis, das minhas celebridades preferidas, e só muito mais tarde comecei a combinar o desenho com a minha paixão pelas histórias. Por isso, estudei ilustração primeiro em Bruxelas e depois na cidade flamenga de Gante, onde ainda vivo. Desde 2020 que me dedico à ilustração profissionalmente, trabalhando sobretudo com crianças, transitando entre a ilustração tradicional e a banda desenhada.
Entre Elas foi a tua obra de estreia que recebeu de imediato atenção. Como foi o processo de criação deste livro?
A história veio-me à memória em 2019, enquanto lia o antigo blogue que mantinha na adolescência, nos anos 2000. Num post, relatei todos os momentos engraçados que vivi durante um programa de imersão em holandês que fiz com uma amiga. O que não referi, no entanto, foi a tristeza que senti durante aquela semana de programa, que aconteceu logo após a morte da minha avó. Este foi o ponto de partida para o meu guião, e acrescentei então alguns temas que me interessavam: a transição para a adolescência, as grandes crises de amizade, o bullying e a necessidade de pertença.
Para tornar a história o mais realista possível, utilizei muitas expressões, padrões de fala, objetos e elementos da cultura pop específicos da minha adolescência. Fiz o storyboard, a arte-final e a coloração no iPad, prestando muita atenção à expressividade e ao dinamismo das minhas personagens, bem como à atmosfera vibrante do verão.
Esta novela gráfica retrata de forma muito autêntica as emoções conturbadas da adolescência, os sentimentos ambivalentes, a pressão do grupo. Tens sentido que os jovens se identificam?
Tenho a impressão, pelo menos, que estas são experiências pelas quais muitos adolescentes passam em algum momento, e que nem sempre são levadas muito a sério pelos adultos, embora tenham imensa importância para os jovens em questão.
Durante as sessões de autógrafos, muitas jovens leitoras disseram-me que escolheram este livro porque tinham vivenciado situações semelhantes às da Júlia e da Mariana; espero que se sentissem compreendidas.
O luto pela perda de uma avó é um dos temas importantes tratados no livro. Pela ordem natural, a morte dos avós significa o primeiro confronto com a dor da perda e marca-nos para sempre. A relação entre netos e avós é algo especial para ti?
Sim, claro. Obviamente, não é assim para todos, mas, para mim, as memórias dos meus avós são memórias da infância, repletas de alegria e nostalgia. O que quis explorar com esta história é o duplo luto que a Júlia enfrenta, uma vez que está numa fase de transição, na transição para a adolescência: precisa de se despedir tanto da avó como de uma forma de infância e inocência despreocupada que já não pode existir após esta perda.
O tema da amizade também está muito presente. Enquanto crescemos, vamos mudando e, por vezes, também mudamos de amigos porque evoluímos em sentidos diferentes. Mas há amizades que ficam para toda a vida. A amizade também se aprende?
É certo que as amizades evoluem, assim como o ritmo da vida, e nem sempre é fácil manter as nossas relações, seja por falta de tempo, falta de motivação ou simplesmente porque já não partilhamos muitos interesses. Acredito que algo que podemos aprender com a experiência é reconhecer as pessoas com quem nos sentimos à vontade e comunicar melhor as nossas alegrias, tristezas, raiva, etc., para construir amizades mais pacíficas. Isto não nos impede certamente de cometer erros e talvez até de perder amigos por vezes, mas isso também faz parte do processo de aprendizagem.
A gestão de expectativas e o sentimento de pertença são temas que estão na ordem do dia nos calendários juvenis. Este livro é «muito cru» na sua abordagem. E ainda bem. Tens algum conselho especial?
Na verdade, não. Acho que é normal atrapalhar-se um pouco ou fazer más escolhas, como a Mariana fez, mas diria que é preciso tentar ouvir os instintos, não se forçar a ser alguém que não se é só para agradar aos outros e, idealmente, ter alguém em quem confiar se sentir que algo está errado. É mil vezes melhor estar rodeado de pessoas com quem se pode ser completamente autêntico!
Podes falar-nos do que tens feito desde a publicação de Entre Elas? Podemos ler mais obras tuas?
Após o lançamento Entre Elas, ilustrei um romance infantil, Team Fantôme et Beurre Salé (escrito por Aurélie C. Moulin, publicado pela Sarbacane), bem como os três primeiros volumes de uma série para jovens adultos, Emy & Louise (escrita por Anne-Marie Desplat-Duc e Elisa Villebrun, publicada pela Syros).
Comecei também a escrever novos guiões de banda desenhada, querendo continuar a explorar o tema da amizade entre raparigas e mulheres de diferentes idades.




