Este é um livro que aventureiramente escapa às malhas apertadas do «género», palavra tomada por Clarice Lispector em múltiplos sentidos. Publicado pela primeira vez em 1974, reúne um conjunto de narrativas tragicómicas, iniciáticas, catastrofistas, de audácia absoluta e ácido humor, entre a pulsão animalesca e a consciência cortante. A intimidade erótica é escrutinada sem pudor, tal como o envelhecimento do corpo é colocado sob o holofote de uma escrita inconfundível.
Há uma «velha maluca», um cortejo de «malditos», um «arauto mudo», um «anão corcunda», uma rapariga «nervosa», figuras improváveis cuja «mistura andrógina» – delirante e enfeitiçante – abala a «confiança no mundo» e provoca um «sofrimento angélico». Ao eletrizante imaginário clariceano importam pouco as fronteiras que separam a verdade da invenção, ou as diferenças entre a arquitetura de um conto, a engrenagem de uma crónica ou o solavanco de um fragmento. Há um fluxo poético que funciona como véu da longa noite da literatura, «possibilidade excepcional» de imortalidade.
Os elogios da crítica:
«O que se escreveu antes é diferente daquilo que se escreveu depois de Clarice. Também nós mesmos, leitores, somos diferentes antes e depois de a lermos, antes e depois do contacto com essa estirpe particular do vírus da liberdade que esta escritora carrega, e da qual terá sido, estou certa, a paciente zero.»
Ana França, nota de apresentação
«Lispector confronta, com surpreendente honestidade, os “prazeres e perigos” do corpo feminino envelhecido. […] A busca pela dignidade culmina não no repúdio, mas no reconhecimento do desejo e na recusa intransigente de morrer antes da morte.»
Los Angeles Review of Books
«Uma aventura dionisíaca, ou mesmo iniciática, de confrontação a limites e padrões, na qual há muito de macabro e de grotesco. […] O noturno sai do título e espalha-se por todos os lados, figurando como o “desconhecido que vicia”.»
O Globo
«Lispector […] tão perto de nós, ontem, tão à nossa frente. Avança trémula na incompreensível e cintilante densidade do mundo, com ouvido apurado, que capta até o ruído das estrelas, o mais leve toque de átomos, o silêncio entre duas batidas do coração.»
Hélène Cixous
«Clarice Lispector tinha uma inteligência lapidar, um instinto visionário e um sentido de humor que ia desde o deslumbramento ingénuo até à comédia maliciosa. Um corpo literário impressionante que não tem par na literatura.»
Rachel Kushner
«Uma escritora verdadeiramente notável.»
Jonathan Franzen
«Uma das escritoras mais misteriosas do século XX.»
Orhan Pamuk
«Brilhante e inclassificável. Elegante, culta, temperamental, Lispector é uma artista emblemática que pertence ao mesmo panteão de Kafka e Joyce.»
Edmund White
«Clarice Lispector é enigmática, mística, contraditória e filosófica. Mesmo que comece em território familiar […], rapidamente se desvia para um reino em que os sons se tornam discordantes e a paisagem se faz indiscernível, assumindo tonalidades imprevistas.»
The New York Times
«As suas imagens deslumbram até quando o seu significado é mais obscuro, e quando escreve sobre aquilo que a incomoda é a encarnação da lucidez.»
The Times Literary Supplement