Philippe Sands é um dos advogados de Direitos Humanos mais respeitados do Reino Unido. Esteve envolvido nos principais processos dos últimos anos nesta área: da Bósnia ao Congo, da Jugoslávia ao Ruanda, passando pelo Iraque e Guantánamo. Teve também lugar na primeira fila de um dos mais importantes processos criminais internacionais desde os julgamentos de Nuremberga — a ação judicial contra Pinochet — princípio de um novelo complexo de interligações que cruzam décadas, continentes e os caminhos de três homens: o antigo ditador chileno, o antigo oficial das SS nazis Walther Rauff, e o próprio Sands.
Londres, 1998
Em 1998, Augusto Pinochet viaja para Londres, onde recupera de uma operação médica quando é detido sob acusação de crimes contra a humanidade e genocídio. Torna-se alvo de um pedido de extradição para ser julgado em Espanha, movido pelo juiz Baltasar Garzón com base no assassínio de cidadãos espanhóis no Chile, entre eles Carmelo Soria, funcionário de um organismo das Nações Unidas e militante do Partido Comunista. Pinochet alegou imunidade.
Philippe Sands, chamado a aconselhar o ex-chefe de Estado chileno sobre a sua alegação, optou por declinar e representar, pelo contrário, uma organização de direitos humanos contra ele. Tinha razões pessoais para se sentir especialmente próximo do tema: a sua sogra, Leina Schiffrin, era prima de Carmelo Soria, vítima do regime de Pinochet. O ex-chefe de Estado acabaria por conseguir escapar à extradição e regressar ao Chile, num processo marcante para o Direito Internacional e para o próprio Sands, que não mais esqueceu os seus meandros e personagens.
A carta
Muitos anos mais tarde, quando investigava para um livro sobre a ratline, a rota adotada por nazis para fugirem da Europa para a América do Sul após a Segunda Guerra Mundial, Sands encontrou no arquivo de uma família austríaca uma carta escrita por um antigo oficial nazi, Walther Rauff, um dos criadores das câmaras de gás móveis que terão vitimado dezenas de milhares de pessoas no Terceiro Reich. Entre estas vítimas, encontrava-se uma jovem de 12 anos chamada Herta Gruber, prima mais velha da mãe de Philippe Sands. Na altura, não lhe ocorreu que pudesse haver alguma ligação entre Pinochet e Rauff, mas viria a descobrir que as vidas destes homens estavam profundamente entrelaçadas.
Rauff, procurado por crimes contra a humanidade e genocídio, conseguiu atravessar o Atlântico para a América Latina depois da Segunda Grande Guerra. Viria a fixar-se no Chile onde administrou uma fábrica de conservas de caranguejo-real em Punta Arenas. Discreto e seguro de si, este alemão tranquilo não tardaria a ver-se envolvido num formigueiro e boatos que o acusavam de ter uma segunda carreira nos serviços secretos de Augusto Pinochet, a temida DINA, sediada no n.º 38 da Rua de Londres, em Santiago do Chile. Envolto em suspeitas e alvo de diferentes pedidos de extradição para a Europa, viria a falecer na América Latina, sem que estes tenham sido atendidos.
Estas descobertas lançaram Philippe Sands numa jornada pessoal para desvendar as ligações entre Rauff e Pinochet, numa história dupla de assassínio em massa que se ramifica no tempo e na geografia. Em Rua de Londres, 38, com base em entrevistas, arquivos, testemunhos, conversas e também na sua interpretação do que viu e ouviu, expõe as consequências duradouras de crimes históricos e oferece uma reflexão profunda, lúcida e surpreendente sobre as fronteiras que existem, ou deveriam existir, entre imunidade e impunidade num mundo que afirma aspirar à justiça universal.





